Anfotericina: promissor tratamento para pessoas com Fibrose Cística

Categoria: Coluna Científica - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 08 de julho de 2019

A anfotericina, um medicamento amplamente usado contra infecções fúngicas, pode ser um potencial tratamento para restaurar as propriedades do muco nos pulmões em pessoas com Fibrose Cística. Esse foi o resultado apresentado pelo estudo “Canais iônicos formados por pequenas moléculas aumentam as defesas do hospedeiro no epitélio das vias aéreas na Fibrose Cística”, publicado na revista Nature.

O medicamento cria poros na membrana das células que revestem as vias aéreas, permitindo que ocorra secreção de bicarbonato. Desta forma, estes poros substituem uma função importante desempenhada pela CFTR, que é a proteína ausente ou defeituosa em pessoas com FC.

Ao analisar o tecido pulmonar de seres humanos e os modelos de suínos com FC, os pesquisadores observaram que a anfotericina restaurou o fluxo de íons bicarbonato das células pulmonares, normalizando os níveis de pH, viscosidade e atividade antibacteriana do líquido que recobre as células epiteliais das vias aéreas. Os pesquisadores acreditam que essa terapia possa ser promissora por ser um tratamento adequado a todos os pacientes com FC, independente das mutações no gene CFTR.  

A proteína CFTR atua como um canal que permite a passagem de cloreto e bicarbonato, sendo seu funcionamento essencial para regular a quantidade de sais e água dentro e fora das células. Esse é um importante processo que resulta na produção de suor, saliva e muco nas vias aéreas. O muco, com viscosidade e o pH corretos, tem um papel importante na proteção das vias aéreas contra a entrada de agentes nocivos e microorganismos, como fungos e bactérias. O bicarbonato, por exemplo, é um agente antimicrobiano chave nesse processo.

As alterações no canal CFTR tornam o muco da superfície das vias aéreas mais ácido e isso altera a secreção de sais. “Essas alterações prejudicam duas importantes defesas dos pulmões: a atividade antibiótica e a limpeza realizadas pelo muco. Como resultado, as pessoas com FC se tornam mais vulneráveis às infecções.”, disse Michael J. Welsh, professor da Universidade de Iowa e co-autor do estudo para uma reportagem feita por Liz Touchstone.

“Ao invés de tentarmos fazer terapia genética ou corrigir a proteína, usamos uma abordagem diferente. Utilizamos um substituto de molécula que pode executar a função de canal da proteína ausente, que chamamos de prótese molecular”, afirma Dr. Burke, outro colaborador da pesquisa.

A partir de células que revestem os pulmões coletadas de diversos pacientes com FC e diferentes mutações, os pesquisadores descobriram que a anfotericina pode formar canais na superfície das células, liberando o bicarbonato que estava preso dentro delas. O tratamento também ajudou a normalizar os níveis de pH e a espessura do muco das vias aéreas.

A equipe de pesquisadores também usou um modelo suíno com FC, que não possuía o gene CFTR, com uma formulação de anfotericina destinada a atingir os pulmões. O tratamento foi capaz de restaurar as propriedades antibacterianas das superfícies das vias aéreas nos tecidos humano e animal.

“Assim como um dispositivo de prótese pode restaurar uma grande quantidade de funções para aqueles que não tem um membro, descobrimos que, embora a anfotericina não seja uma ‘cópia’ perfeita da proteína CFTR, ela pode funcionar como um canal de bicarbonato e restaurar mecanismos de defesa na superfície das vias aéreas”, disse Burke.

A capacidade da anfotericina de contornar o defeito na CFTR e criar novos canais significa que ele pode ser capaz de tratar pessoas com FC independente de qual é a mutação no gene CFTR. “Considerando que muitos dos avanços no tratamento da FC têm sido direcionados para mutações específicas, essa abordagem beneficiaria a todos”, disse Emily Kramer, fundadora da CF Emily´s Entourage, financiadora parcial da pesquisa.

“Segundo, e talvez ainda mais importante, essa abordagem apresenta uma oportunidade de reutilizar um medicamento existente e aprovado e trazê-lo para o tratamento da FC”, acrescentou.

Em seguida, a equipe de pesquisa de Illinois-Iowa espera iniciar pesquisas clínicas para testar se a anfotericina administrada nos pulmões é eficaz no tratamento da FC, “especialmente com pessoas para mutações que ainda não possuem medicamentos”, disse Burke.

Fonte: PENA, A. Amphotericin Holds Promise as Treatment for All CF Patients, Preliminary Study Shows. Cystic Fibrosis News Today. 19 de março de 2019. Disponível em: https://cysticfibrosisnewstoday.com/2019/03/19/amphotericin-holds-promise-treat-cf-patients/

Tradução: Julianna Rodrigues Beltrão, acadêmica do 9º período de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); presidente da Liga Acadêmica de Humanização do Cuidado em Saúde (LAHCS); atua no setor de Psicologia e Projetos do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística.

Revisão: Miquéias Lopes-Pacheco, Biomédico (2009) com especialização em Farmacologia Clínica (2011). Ele realizou seu Mestrado (2012) e Doutorado (2016) em Ciências Biológicas – Biofísica na Universidade Federal do Rio de Janeiro com um período de treinamento (2013-2014) na Universidade Johns Hopkins (EUA). Atualmente, Miquéias é Pesquisador/Pós-Doutor na Universidade de Lisboa (Portugal). Sua pesquisa é focada em: 1) entender os mecanismos celulares e moleculares de mutações no gene CFTR; 2) desenvolver terapias farmacológicas inovadores para a fibrose cística; 3) investigar as terapias celulares e gênicas para doenças respiratórias. Ele também recebeu o prêmio “Gilead Sciences International” de 2018 para a Fibrose Cística.

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

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