A importância de cuidar da saúde mental durante o transplante de pulmão

Categoria: Depoimentos - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 14 de janeiro de 2019

Por Jenavese Armstrong 

Como assistente social, minha carreira foi principalmente focada na atuação em situações de crises e internações psiquiátricas para pessoas com transtornos mentais. Mas só aprendi realmente como é importante cuidar da saúde mental e dos traumas quando recebi o duplo transplante de pulmão.

Para aqueles que já passaram por um transplante de pulmão, alguns detalhes dessa jornada são mais intensos do que outros. Os detalhes mais importantes da minha trajetória são minha saúde mental… Ou a falta dela.

Como assistente social, minha carreira é voltada, principalmente, para a atuação em situações de crises e em internações psiquiátricas de pessoas com doenças mentais. Como profissional, compreendo a fragilidade da mente, mas foi somente no momento da minha experiência de transplante que aprendi realmente como a mente pode se comportar.

Na UTI, enquanto me recuperava do transplante, recebi uma combinação de medicamentos para controle da dor que causaram psicoses induzidas por substâncias. Me lembro de sentir como se estivesse caindo em um buraco negro, ver celebridades e extraterrestres, e ouvir crianças brincar. Apesar de terem me avisado  sobre a possibilidade das alucinações relacionadas à medicação, acreditei que minha vontade e minha fé impediriam qualquer ansiedade e depressão. Recebi outra medicação para reverter a reação, o que fez voltar para a respiração por ventilador e assim controlar melhor a dor.

A depressão veio quando fui transferida da UTI para o quarto. Eu me senti incapaz de controlar meu ambiente ou tomar decisões sozinha, o que era frustrante. A ansiedade surgiu da falta de confiança nos pulmões novos, o que causou pânico. Embora os novos pulmões funcionassem corretamente, eu estava acostumada com o tanque de oxigênio e com o grande esforço para respirar.

Por causa da minha atividade profissional, eu sabia que as experiências dos pacientes no hospital podem levar ao Transtorno do Estresse Pós-traumático (TEPT). Enquanto eu estava internada, experimentei duas intubações, dez drenos torácicos dolorosos, a inserção de um tubo gástrico, a falta de controle da dor, e a incapacidade de falar, que me levaram a experimentar os sintomas de TEPT. Ironicamente, eu tinha todas as ferramentas para lidar com esses sintomas; mas é mais fácil falar que colocar em prática. Foi impossível utilizar as técnicas e habilidades de enfrentamento que eu usava com meus pacientes no ambiente hospitalar, naquele momento em que eu era a paciente

Minha saúde mental continuou a piorar com o passar dos dias, e eu senti que não tinha controle sobre a situação. Minha equipe de tratamento foi empática ao notar que minha animação  pela vida desaparecia rapidamente. Eles atenderam às minhas necessidades, tratando o estresse com recursos como meditação e imaginação guiada. Frases afirmativas e mantras fizeram parte da terapia cognitivo-comportamental, e foram positivos. Tive indicação para receber um medicamento ansiolítico, que frequentemente me fazia dormir. Isso também foi bom para o processo de recuperação, já que o sono é importante para a cura e higiene mental. Além disso, percebi que ficar ao ar livre era revigorante. Depois da avaliação do fisioterapeuta, a enfermeira permitiu que eu caminhasse pelo hospital.

Acredito que os médicos devem incentivar seus pacientes a buscarem maneiras de cuidar da sua saúde mental quando passam por uma experiência tão transformadora e muito provavelmente traumática. E os pacientes devem refletir sobre as situações procurando a melhor maneira de cumprir com as atividades, além de contar com várias alternativas.

Se fosse mudar algo, eu teria usado meus livros de colorir, feito uma lista de músicas preferidas, e assistido meus filmes favoritos. Também é importante que os familiares façam o possível para cuidar da saúde mental de seus queridos. Por exemplo, sabendo que eu tinha ondas de calor que me faziam sentir mal, minha mãe comprou um pequeno ventilador para o meu quarto. Além disso, ela buscou informações com os médicos sobre a possibilidade de eu chupar balas, já que eu não poderia comer ou beber por algumas semanas.

Havia serviços psicológicos disponíveis no centro de transplante onde fiquei internada, assim, todo paciente recebe esse atendimento. Conversei com meu psicólogo antes do transplante para lidar com a ansiedade que eu tinha em relação à intensa dor pós-cirurgia. Além disso, enquanto eu estava na lista de espera, realizei sessões de psicoeducação focadas nas minhas habilidades de enfrentamento, redução da ansiedade e atenção plena (mindfulness).

Todas essas sessões de terapia foram úteis ao longo da trajetória pós-transplante. Mas, ao mesmo tempo, é difícil saber o que esperar, porque cada pessoa tem uma experiência completamente diferente das demais.

Em alguns momentos, cheguei a me arrepender da decisão de ter feito o  transplante por causa da dor e dos efeitos colaterais da medicação. Mas me agarrei às palavras do psicólogo: “O primeiro mês vai ser o mais difícil”.

Como profissional da área e paciente, essa experiência me permitiu ter uma visão única. Agora entendo a luta vividas pelos  paciente, mas também posso ajudar como profissional da saúde . No futuro, pretendo defender as práticas de saúde mental para a comunidade de Fibrose Cística que passa por transplante.

Jena foi diagnosticada com Fibrose Cística aos dois anos de idade, enquanto morava no exterior. Apesar de enfrentar vários obstáculos, formou-se bacharel em Psicologia e defendeu mestrado em Serviço Social. Sua carreira é focada em  saúde mental e a crise na comunidade. Jena recebeu transplante pulmonar em 19 de maio de 2017, e esse procedimento permitiu que ela continuasse com seu trabalho na sua comunidade. É apaixonada por sua família, por comida, viagens e pela humanidade.

Fonte: https://www.cff.org/CF-Community-Blog/Posts/2018/Why-Mental-Health-Mattered-When-It-Came-to-My-Lung-Transplant-Journey/

Traduzido por Vera Carvalho, voluntária de tradução para o Instituto Unidos pela Vida. Vera é tradutora profissional com especialidade na área científica ([email protected]).

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

 

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