Incidência de doença hepática e cirrose em pessoas com Fibrose Cística

Categoria: Coluna Científica - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 17 de agosto de 2019

Uma maior incidência de doença hepática foi encontrada em pessoas com Fibrose Cística (FC) no Reino Unido, de acordo com um grande estudo de registro de coorte*. Como a doença no fígado é a terceira principal causa de morte na FC, os pesquisadores também encontraram que o tratamento com ácido ursodesoxicólico mostrou benefícios potenciais nos casos avançados e, por isso, deve ser melhor investigado. 

O estudo “A carga emergente de doença hepática em pacientes com Fibrose Cística: um estudo nacional do Reino Unido”, publicado na revista Plos One, também confirmou dados anteriores de que o sexo masculino, infecções por Pseudomonas aeruginosa e diabetes relacionada à FC são riscos independentes e significativos para a cirrose do fígado. 

Nos últimos anos, foram desenvolvidos melhores tratamentos e cuidados para as complicações respiratórias e nutricionais, auxiliando no prognóstico e na qualidade de vida. Ainda assim, as complicações não pulmonares, como as doenças hepáticas, têm aumentado.

Segundo pesquisas anteriores, entre 20% e 40% das pessoas desenvolvem doença hepática relacionada à FC (DHRFC), sendo essa uma das principais causas de mortalidade após as doenças respiratórias e complicações no transplante pulmonar. 

As alterações hepáticas avançadas podem avançar para cirrose e causar importantes danos ao fígado a longo prazo. Cerca de 5-10% das pessoas com FC podem desenvolver cirrose até os 10 anos de idade e essa complicação pode causar insuficiência do fígado, levando à necessidade de um transplante desse órgão. 

O ácido ursodesoxicólico, um ácido biliar que ajuda o corpo a digerir as gorduras, é um tratamento comumente usado nos casos de DHRFC, mas as evidências que comprovam seus benefícios ainda são inconclusivas.

Por essas razões, pesquisadores do Reino Unido avaliaram um grande grupo de pessoas com DHRFC para identificar fatores que predizem a doença e a cirrose, além de avaliar a eficácia do ácido ursodesoxicólico como um tratamento. 

O estudo incluiu dados clínicos e demográficos desses portadores entre 2008 e 2013, disponíveis no Registro de FC do Reino Unido. A doença hepática foi definida como a presença de níveis elevados de enzimas hepáticas específicas, fígado anormal visto por ultrassom ou sintomas associados ao baço, trato gastrointestinal ou abdominal. 

A maioria (89,7%) dos 3.417 participantes analisados tinham doença hepática não cirrótica. 

Os resultados mostraram que, enquanto o diagnóstico anual de novos casos de DHRFC (incidência da doença) diminuiu entre 2009 e 2013 (de 89,2 para 53,4 casos por 1.000 pessoas com FC), o número anual de casos (prevalência da doença) aumentou entre 2008 e 2013 (de 203,4 para 228,3 casos para cada 1.000 portadores de FC). 

No total, 200 óbitos (5,9%) foram registrados durante o período do estudo. Os dados mostraram uma maior taxa de mortalidade em pessoas com DHRFC (19,3 óbitos anuais para cada 1.000 pessoas com FC) em comparação com aqueles sem essa complicação (7,6 óbitos anuais para cada 1.000 pessoas com FC). 

Os pesquisadores também mediram a associação entre os dados clínicos dos participantes e a cirrose hepática. Como idade é um fator de risco para a cirrose, eles dividiram os dados entre crianças (abaixo de 16 anos) e adultos. 

Foi descoberto que, em homens, a diabetes relacionada à FC e infecções crônicas por Pseudomonas aeruginosa foram preditores significativos e independentes de cirrose em adultos. Eles não encontraram preditores entre as crianças. 

A progressão da doença foi analisada usando dados de acompanhamento dos participantes sem cirrose (3.064) no início da pesquisa. Durante a realização, 117 deles (3,8%) desenvolveram cirrose, sendo 44 crianças e 73 adultos, com idade média de diagnóstico de 19 anos. As análises estatísticas mostraram que a cirrose também estava associada a diabetes relacionada à FC, baixo índice de massa corporal (IMC inferior de 18,5 kg/m2) e risco de morte prematura. 

O tratamento com ácido ursodesoxicólico em portadores de FC não cirróticos foi associado com maior expectativa de vida. 

A equipe apontou a necessidade de outros estudos com longos períodos de acompanhamento para confirmar as descobertas. Eles também notaram que o estudo não incluiu pessoas com FC sem DHRFC, o que seria valioso como um grupo de comparação e permitiria melhores conclusões.

“Apesar dessas limitações, este é o maior conjunto de dados sobre esse assunto no Reino Unido”, disseram os pesquisadores. 

No geral, “este estudo destaca uma importante mudança na forma de lidar com a DHRFC. A prevalência está aumentando lentamente e a doença não está sendo diagnosticada na infância. Embora a atuação do ácido ursodesoxicólico ainda esteja em dúvida, essa pesquisa identificou uma associação positiva com a sobrevida”, concluíram. 

*Estudo de coorte: é um tipo de pesquisa em que é observada e analisada a relação entre a presença de fatores de risco ou determinadas características e o desenvolvimento de doenças, em grupos específicos da população.

Fonte: GISLER, S. Incidence of Liver Disease and Cirrhosis Climbing in CF Patients, UK Registration Study Says. Cystic Fibrosis News Today. 15 de abril de 2019. Disponível em: https://cysticfibrosisnewstoday.com/2019/04/15/uk-study-shows-increased-prevalence-liver-disease-cirrhosis-associated-with-cf/.

Tradução: Julianna Rodrigues Beltrão, acadêmica do 9º período de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); presidente da Liga Acadêmica de Humanização do Cuidado em Saúde (LAHCS); atua no setor de Psicologia e Projetos do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística.

Revisão: Verônica Stasiak Bednarczuk de Oliveira, psicóloga – CRP 08/16.156, especialista em análise do comportamento, fundadora e diretora geral do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística, diagnosticada com FC aos 23 anos de idade. 

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

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