30 anos de uma descoberta que mudou e ainda muda a história da Fibrose Cística

Categoria: Coluna Científica - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 30 de setembro de 2019

Por Cristiano Silveira*

O canadense John Richard Riordan é reconhecido pela descoberta da ΔF508, primeira mutação descrita como causadora da Fibrose Cística. Esta pesquisa foi realizada ao lado de colegas biólogos, Francis Collins e Lap-Chee Tsui e, desde então, outras pesquisas encontraram mais de 2.000 mutações diferentes que podem causar a doença.

Esse trabalho, publicado no dia 08 de setembro de 1989 na revista Science, foi um marco importante na pesquisa da doença. Por esse motivo, o 8 de setembro foi escolhido como Dia Mundial da Fibrose Cística.

30 anos se passaram e a promessa de uma cura para Fibrose Cística está muito mais perto do que já esteve antes, mas ainda esbarra em alguns obstáculos. A ideia de tratar a doença com a chamada terapia gênica foi a primeira tentativa. Introduzir cópias normais do gene CFTR usando vírus como vetores parecia uma boa ideia, afinal, a Fibrose Cística é causada por uma mutação em um único gene. Mas acontece que o gene CFTR é muito grande e não cabe em qualquer tipo de vírus. Além disso, nosso corpo aprendeu ao longo de anos de evolução, a combater os vírus que entram no nosso corpo e o que acontece muitas vezes com essas tentativas é que elas desencadeiam uma resposta imunológica que, no final das contas, inviabiliza o gene e pode até agravar a saúde do paciente. A saída então foi buscar outras alternativas.

Hoje há muitas abordagens sendo testadas para o tratamento da Fibrose Cística, mas a mais conhecida delas são os moduladores do gene CFTR, moléculas que conseguem se ligar à proteína CFTR alterada e fazer com que ela, mesmo com um “defeito”, funcione o mais próximo do normal possível. Ou seja, que consiga ser totalmente sintetizada, consiga se dobrar (folding) da maneira certa, passe pelo controle de qualidade celular, chegue à membrana celular e lá funcione como um canal de cloreto. Ufa!!! Parece simples, mas pra chegar até lá é um longo caminho.

Essas moléculas, chamadas de corretores e potenciadores, são o primeiro tratamento para o que o Dr. Francis Collins (Lembra dele? Um dos colegas do Dr. Riordan) chamou de “defeito básico da FC”. Corrigindo o defeito, a proteína CFTR funciona e os sintomas da da doença diminuem. Não é fantástico? O desafio agora é achar moléculas que sirvam para todas as variantes (mutações) no gene CFTR e fazer com que esses tratamentos cheguem aos pacientes.

A Ciência não é maravilhosa? Eu acho. Acredito também que estamos muito perto de todo esse conhecimento mudar de vez o cenário da fibrose cística. 

Referência:

Riordan, J. R. et al. Identification of the cystic fibrosis gene: cloning and characterization of complementary DNA. Science 245(4922), 1066–73 (1989).

*Biólogo, presidente da ACAM-RJ e coordenador da Equipe de Fibra.

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

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