Cientistas identificam nova forma de ajudar a prever e monitorar o diabetes associado à fibrose cística (DRFC)
Comunicação IUPV - 06/07/2026 09:30Marcadores sanguíneos podem sinalizar precocemente o diabetes associado à fibrose cística em adultos, sugere pesquisa

Os níveis sanguíneos de certos microRNAs circulantes – pequenas fitas de material genético que ajudam a regular a atividade gênica – podem sinalizar alterações ligadas ao diabetes relacionado à fibrose cística (DRFC), ou ao seu desenvolvimento, em pessoas com Fibrose Cística.
É o que aponta um novo estudo realizado por pesquisadores europeus, que buscaram identificar marcadores sanguíneos capazes de prever o risco dessa complicação da FC entre os pacientes, bem como monitorar a condição quando ela ocorre.
Os pesquisadores constataram que dois microRNAs – o miR-34a-5p e o miR-122-5p – apresentam níveis sanguíneos mais elevados em pessoas com problemas iniciais no controle da glicose e naquelas já diagnosticadas com DRFC. Isso sugere que eles podem constituir biomarcadores sanguíneos promissores, passíveis de serem utilizados no monitoramento da condição.
Em contrapartida, níveis mais elevados de um terceiro microRNA – o miR-223-3p – foram associados a um melhor controle da glicose em pessoas sem diabetes; uma relação que não foi observada naqueles com controle glicêmico comprometido ou com DRFC. Esse achado sugere que tal microRNA pode desempenhar um papel no desenvolvimento da doença, o que, potencialmente, o tornaria um marcador de risco para o diabetes em pessoas com FC.
“Este estudo, gerador de hipóteses, pode servir como uma plataforma sólida para futuras investigações sobre o papel potencial dos microRNAs circulantes como biomarcadores diagnósticos, de monitoramento e preditivos no DRFC”, escreveram os pesquisadores, acrescentando: “Propomos que os microRNAs circulantes possam atuar como biomarcadores para as complicações da FC”.
O estudo, intitulado “Alterações dinâmicas nos microRNAs circulantes durante o teste oral de tolerância à glicose corroboram seu potencial como biomarcadores diagnósticos e de monitoramento no diabetes relacionado à fibrose cística“, foi publicado na revista Diabetologia.
A DRFC – uma complicação comum da FC que afeta pelo menos metade dos adultos com a doença – é caracterizada por níveis elevados de glicose, ou açúcar, no sangue. Isso ocorre principalmente porque as células produtoras de insulina no pâncreas – chamadas células beta – deixam de funcionar adequadamente ao longo do tempo. A insulina é o hormônio que permite que a glicose sanguínea entre nas células e seja utilizada como fonte de energia. Quando uma quantidade insuficiente de insulina é liberada, os níveis de glicose no sangue aumentam.
MicroRNAs no sangue podem indicar a progressão da doença
Os microRNAs que circulam na corrente sanguínea podem atuar como indicadores do estado ou da progressão da doença, além de poderem auxiliar na comunicação entre diferentes órgãos.
Por exemplo, estudos demonstram que microRNAs liberadas pelo tecido adiposo podem influenciar a maneira como o fígado regula o açúcar no sangue. Por outro lado, microRNAs provenientes de células imunológicas podem penetrar nas células beta e influenciar tanto a produção de insulina quanto a sobrevivência celular.
Com base nesse conhecimento, os pesquisadores levantaram a hipótese de que os padrões de microRNAs circulantes poderiam variar em função da tolerância à glicose – uma medida da eficiência com que o organismo remove o açúcar do sangue após a sua ingestão – em pessoas com FC. A equipe também teorizou que alguns microRNAs poderiam sofrer alterações rápidas quando os níveis de glicose no sangue aumentassem.
Para investigar essa questão, pesquisadores da Dinamarca, da Suécia e do Reino Unido analisaram os níveis de microRNAs no sangue de 93 adultos com FC que foram submetidos a um teste oral de tolerância à glicose (TOTG). O TOTG avalia a resposta imediata do organismo à ingestão de açúcar. Os participantes ingeriram uma bebida açucarada, e os níveis de açúcar no sangue foram medidos antes da ingestão e, posteriormente, aos 10 minutos, 30 minutos, uma hora e três horas após o consumo.
Com base na tolerância à glicose, os participantes foram classificados em quatro grupos: tolerância normal à glicose, na qual os níveis de açúcar no sangue permanecem dentro da faixa de normalidade durante todo o teste; tolerância indeterminada à glicose, na qual os níveis de açúcar apresentam um pico breve, mas retornam à normalidade após duas horas; tolerância à glicose comprometida, na qual os níveis de açúcar permanecem acima do normal após duas horas; e DRFC, na qual os níveis de açúcar no sangue após duas horas preenchem os critérios diagnósticos para diabetes.
Para identificar os microRNAs de interesse, os pesquisadores analisaram, inicialmente, amostras de um subgrupo menor, composto por 12 participantes – três de cada grupo. Entre os 275 microRNAs detectados de forma consistente nessas amostras, 16 apresentaram padrões distintos, seja antes da ingestão de glicose ou em resposta à bebida açucarada. Estes foram, então, examinados no grupo de estudo completo, no qual oito foram confirmados como apresentando diferenças em função do status de tolerância à glicose ou em suas respostas durante o teste.
Entre eles, os pesquisadores destacaram três – miR-34a-5p, miR-122-5p e miR-223-3p – pelo seu potencial como biomarcadores sanguíneos de DRFC ou pelo seu envolvimento no desenvolvimento de diabetes em pessoas com FC.
Níveis mais elevados associados a marcadores de danos hepáticos na DRFC
Níveis sanguíneos mais elevados de dois microRNAs – miR-34a-5p e miR-122-5p – foram observados no baseline, ou seja, no início do estudo, em pessoas com tolerância à glicose indeterminada e naquelas com DRFC. Nas pessoas com DRFC, níveis sanguíneos mais elevados desses microRNAs também foram associados a níveis mais altos de certas enzimas hepáticas, comumente utilizadas como marcadores de danos ao fígado.
Visto que os níveis sanguíneos de miR-122-5p encontram-se elevados na doença hepática relacionada à fibrose cística, níveis altos deste microRNA podem “ser indicativos tanto do desenvolvimento da DRFC quanto de danos hepáticos”, escreveram os pesquisadores. Em contrapartida, o papel do miR-34a-5p mostrou-se menos claro, uma vez que esse microRNA é produzido em diversos órgãos importantes.
O miR-223-3p apresentou um padrão distinto. Seus níveis sanguíneos no baseline foram semelhantes entre os grupos, mas aumentaram 30 minutos após a ingestão de glicose em pessoas com tolerância à glicose comprometida. Nas pessoas com tolerância à glicose normal, níveis mais elevados de miR-223-3p foram associados a níveis sanguíneos de açúcar mais baixos aos 30 e 60 minutos durante o teste, bem como a níveis de insulina mais elevados no baseline.
Esses achados sugerem que o miR-223-3p pode auxiliar o organismo a responder ao aumento dos níveis de açúcar no sangue, favorecendo a liberação de insulina. Contudo, em pessoas com problemas mais avançados no controle da glicemia – incluindo aquelas com DRFC -, essa associação deixou de ser observada, sugerindo que o sistema pode deixar de funcionar adequadamente à medida que a doença progride.
Por fim, experimentos realizados com células produtoras de insulina cultivadas em laboratório demonstraram que o aumento dos níveis de miR-122-5p potencializou a liberação de insulina em resposta à glicose em cerca de 60%. Níveis mais elevados de miR-223-3p promoveram um aumento de 45%. Esse efeito seria benéfico na DRFC, observaram os pesquisadores.
Em contrapartida, níveis mais elevados de miR-34a-5p reduziram a sobrevivência dessas células, sugerindo que esse microRNA pode contribuir para danos às células produtoras de insulina.
“O miR-34a-5p e o miR-122-5p demonstram potencial como biomarcadores para o desenvolvimento da DRFC e para danos hepáticos”, concluíram os pesquisadores. O miR-122-5p e o miR-223-3p poderiam atenuar o desenvolvimento da DRFC ao aumentar a capacidade secretora das células beta, enquanto o miR-34a-5p poderia propagar o desenvolvimento da DRFC ao reduzir a viabilidade celular.
Artigo traduzido pela Dra. Mariana Camargo para o Instituto Unidos pela Vida em 28/05/2026 de: https://cysticfibrosisnewstoday.com/news/scientists-identify-new-way-help-predict-track-cf-related-diabetes/
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Nota importante: As informações aqui contidas têm cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e/ou o tratamento médico. Em caso de dúvidas, fale com seu médico.