Estudo inédito alerta que danos pulmonares na fibrose cística começam antes dos três anos
Comunicação IUPV - 06/05/2026 16:38
Pesquisa do Instituto da Criança e do Adolescente HCFMUSP revela que 95% das tomografias realizadas em crianças menores de três anos já apresentam alterações estruturais nos pulmões
Uma pesquisa inédita conduzida pela Unidade de Pneumologia Pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente (ICr-HCFMUSP) traz um alerta: as lesões pulmonares estruturais em crianças com fibrose cística se instalam de forma silenciosa muito antes do que se imaginava.
Publicado na Respiratory Research & Clinical Practice (RRCP), o estudo revelou que apenas 4,4% das tomografias de tórax realizadas em crianças com média de três anos de idade apresentavam pulmões totalmente normais.
A fibrose cística é uma doença genética que compromete a proteína CFTR, resultando em muco espesso que obstrui as vias aéreas e gera inflamação crônica. Ao analisar o histórico de 90 pacientes acompanhados no ICr-HCFMUSP, os pesquisadores identificaram uma prevalência alarmante de danos: 86,6% das crianças já apresentavam aprisionamento de ar, 75,5% tinham impactação mucoide e 45,5% já sofriam de bronquiectasias (lesões permanentes nos brônquios).
O estudo destaca ainda o uso estratégico da tomografia de tórax para redefinir o diagnóstico clínico. Em 74% dos casos analisados, os achados do exame foram o fator determinante para a prescrição da dornase alfa, um medicamento mucolítico essencial para limpar as vias aéreas.
“Nossos dados funcionam como um chamado à ação. A tomografia é capaz de detectar alterações que o raio-X convencional e o exame físico não mostram nessa fase da vida”, explica o Dr. Luiz Vicente Ribeiro Ferreira da Silva Filho, chefe da Unidade de Pneumologia Pediátrica do ICr-HCFMUSP e autor sênior do estudo. Segundo o especialista, ainda dispomos de poucos recursos para identificar a doença pulmonar precoce na fibrose cística, e o acompanhamento de perto das crianças por equipe especializada é essencial.
Além disso, a pesquisa coloca em evidência um contraste: enquanto países de alta renda já iniciam terapias avançadas (moduladores da proteína CFTR) em bebês, no Brasil, o acesso a esses medicamentos ainda é restrito a crianças maiores de 6 anos.
Dessa forma, o estudo demonstra que os danos estruturais em crianças tão jovens reforçam a necessidade urgente de revisão dos protocolos nacionais.
“A detecção precoce de lesões subclínicas via tomografia é o padrão-ouro para evitar que essas crianças cheguem à vida adulta com a função respiratória severamente comprometida”, justifica o pesquisador.
A fibrose cística é diagnosticada logo ao nascer pelo Teste do Pezinho. Embora os avanços no diagnóstico e tratamento tenham aumentado a sobrevida dos pacientes, a detecção precoce de lesões pulmonares continua sendo o maior desafio para evitar a perda da função respiratória ao longo da vida.
Referências:
Amoras, Aline da Silva; Muñoz, Tália Andrea Soria; Melo, Leticia Cole de; Tomikawa, Silvia Onoda; Eller, Miriam Cardoso Neves; Nakaie, Cleyde Myriam Aversa; Rodrigues, Joaquim Car-los; Silva-Filho, Luiz Vicente Ribeiro Ferreira da. Early structural lung changes in young children with cystic fibrosis: a call to action., e20250402, Abril. 2026. Disponível em: https://rrcpjournal.org/article/early-structural-lung-changes-in-young-children-with-cystic-fibrosis-a-call-to-action/. Acesseo em 06 mai. 2026.
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