Exercício & Fibrose Cística: A Perspectiva de Um Fisioterapeuta (Via CFW)

Categoria: Equipe de Fibra - Postador por: Instituto Unidos pela Vida - Data: 24 de setembro de 2012

Amigos de Fibra!

Ultimamente, temos falado muito sobre atividades físicas, sobre pessoas com Fibrose Cística que praticam diariamente, que treinam, que correm. É consenso entre os médicos de que a atividade física faz parte da rotina de tratamento, devido aos benefícios que trazem para os pacientes. Na realidade, todos precisam de atividades! Portanto, hoje vamos compartilhar com vocês um texto que foi publicado no Jornal da Cystic Fibrosis Worldwide, escrito por um fisioterapeuta sobre atividade física. Lembrando sempre que cada caso é um caso, e que não se deve iniciar uma atividade sem orientação de um profissional que conheça sua condição clínica!

Boa leitura!

Por Peter Anderson: Se graduou na Queens College em Glasgow, Escócia e se especializou bastante rapidamente em Cuidado Respiratório. Ele desenvolveu Programas de Reabilitação Pulmonar em Glasgow e começou a trabalhar com adultos que sofrem de FC. Durante muitos anos, ele foi o Fisioterapeuta Sênior da Unidade de FC Adulta do Oeste da Escócia. Após muitos anos trabalhando longe da FC, ele é hoje o fisioterapeuta clínico especialista da Unidade de FC Pediátrica em Yorkhill, Glasgow.

Na 2ª Edição do Informativo da CFW, escrevi um artigo chamado “Fisioterapia Peitoral: Quem Precisa?” Naquele artigo, mencionei a importância de exercícios regulares no controle da FC. Fui contatado por muitas pessoas perguntando especificamente sobre esse aconselhamento específico. Portanto, neste artigo vou me aprofundar um pouco mais nos motivos pelos quais o exercício é particularmente importante para pessoas com fibrose cística, que tipos de exercícios você deve fazer, como seu fisioterapeuta pode ajudar e como você ajudar a si próprio. Desde que escrevi o artigo anterior, parei de trabalhar com adultos com FC e agora trabalho com crianças com FC, portanto, tentarei descrever as diferentes abordagens no estímulo ao exercício para crianças e adultos.

Até pouco tempo atrás (até a década de 1970) as pessoas com fibrose cística (PCFC) eram ativamente desencorajadas a fazerem exercícios, pois se pensava que o esforço e a falta de ar que sua prática causa seriam demais para elas; que seus pulmões não agüentariam os exercícios e eles possivelmente causariam mais danos. Agora reconhecemos que o caso é totalmente o contrário e os exercícios são ativamente encorajados em PCFC, mesmo durante infecções.

Sabemos que as PCFC que se mantém em melhor forma lidam melhor com o impacto da FC, têm menos infecções e geralmente têm vidas mais longas e saudáveis. Você pode achar que estar em melhor forma é simplesmente um indicativo de que sofre de uma menos FC grave, para começar, Mas, como mencionei no meu último artigo, a falta de ar pode se desenvolver em PCFC independentemente do fato de seus pulmões estarem em boas condições ou não.

Deve parecer óbvio que quanto mais prejudicados seus pulmões estiverem, maior será sua dificuldade com tarefas diárias, e mais ofegante você ficará. Entretanto, não é tão simples assim. Uma vida de inatividade pode ser a causa principal da falta de ar durante as atividades diárias e esse processo pode, na verdade, ser o precursor da infecção. Os danos causados aos pulmões por repetidas infecções causarão o aumento da falta de ar que, por sua vez, leva à ansiedade quanto à sua capacidade de se exercitar. A progressiva inatividade que isso causa pode, por sua vez, levar a mais infecções. Pode ser que o medo do exercício e falta de ar conduzam esse processo. Se você que poderia ser mais ativo, seu fisioterapeuta terá o maior prazer em oferecer auxílio, aconselhamento e monitoramento para certificar que você obtenha o melhor possível com seus esforços.

Não é muito difícil manter crianças com FC se exercitando. Elas devem ser encorajadas a participar de todas as atividades que qualquer criança faria durante seu crescimento. Futebol; natação; hóquei; basquete e qualquer esporte aeróbico (isto é, que te deixa ofegante) devem ser especialmente encorajados. Outras atividades, como lutas marciais e dança também têm o mesmo efeito. Cada vez mais, os fisioterapeutas têm incorporado atividades físicas no regime de descongestionamento do peito. Atividades vigorosas que alteram a maneira como você respira (como o trampolim para crianças) podem ser muito eficazes, ajudando a remover o muco dos pulmões, especialmente quando algumas técnicas de descongestionamento do peito, como a Terapia de Pressão Expiratória Positiva (PEP) ou Drenagem Autogênica (DA) são realizadas por um curto período após o exercício. Isso é verdade para crianças e adultos; (seu fisioterapeuta pode fornecer maiores informações sobre essas técnicas). Sempre digo às crianças pequenas que não permito que seus pais fiquem bravos se elas pularem na cama em casa! É claro que elas adoram, mas não estou tão certo de que seus pais gostem disso!

Conforme ficamos mais velhos e nos tornamos adolescentes, os níveis de prática descongestionamento do peito de exercício tendem a cair. O tempo passado com amigos, por exemplo, tende a deixar de ser em atividades de brincadeira, passando a ser de passatempos mais sedentários. Conforme você avança na escola, pode haver menos ênfase em educação física e mais ênfase nos estudos acadêmicos. Ao deixar a escola, os exercícios regulares podem parar totalmente. Quanto mais independente você se torna, menor a probabilidade de seus pais te levarem para treinar futebol ou praticar natação, por exemplo. Isso ocorre com PCFC e também na população em geral. Portanto, é nesse momento em particular que o aconselhamento e o auxílio de seu fisioterapeuta são especialmente úteis.

Todos os centros de tratamento tentam realizar testes anuais de exercício; isso certamente é parte das nossas diretrizes clínicas de fisioterapia no Reino Unido (no entanto, há muitos fatores que podem dificultar a realização desses testes em centros particulares). Com o tempo, os testes de exercício nos dão uma idéia clara de como a FC está afetando sua capacidade de lidar com atividades diárias. O teste anual de exercício ajuda os fisioterapeutas a identificar as pessoas que podem precisar de aconselhamento específico sobre como melhorar a tolerância ao exercício e diminuir o impacto que a FC tem em sua qualidade de vida.

As atividades físicas regulares vigorosas, no entanto, te fornecem o máximo de benefícios potenciais em termos de saúde em geral e controle da fibrose cística. Continuarei a descrever como você pode conseguir isso.

Que tipos de exercícios devo fazer conforme envelheço?

O princípio básico geral é que, se a sua função pulmonar é de aproximadamente 55% do normal ou acima, você deve ser capaz de se exercitar da mesma forma como o resto da população sem necessidade de aconselhamento específico, embora seu fisioterapeuta fique muito contente em ajudá-lo caso você deseje.

A maioria das pesquisas sobre exercícios mostra que uma combinação de exercício aeróbico (pedalar, correr, nadar etc) e condicionamento muscular (por exemplo, pesos leves) produz os melhores resultados. A maior parte dos fisioterapeutas se concentra em aconselhar e auxiliar no exercício aeróbico, pois esse pode ser o mais difícil de se motivar a fazer regularmente. Um regime de exercício que não inclui treinamento aeróbico regular terá benefícios limitados para a grande maioria das PCFC. Eu delineei, abaixo, o conselho geral sobre como realizar atividades aeróbicas regulares.

Por quanto tempo devo me exercitar?

Os fisioterapeutas chamam isso de duração do exercício. O conselho dado quanto à duração do exercício não é diferente daquele oferecido a qualquer outra pessoa. O exercício aeróbico deve durar pelo menos 20-30 minutos de cada vez.

Com que freqüência devo me exercitar?

Os fisioterapeutas chamam isso de freqüência do exercício. Novamente, o conselho não é diferente daquele oferecido a qualquer outra pessoa. Foi demonstrado que três sessões por semana produzem ótimos resultados.

Com que intensidade devo me exercitar?

Os fisioterapeutas chamam isso de intensidade do exercício. Você pode observar as pessoas tomando a pulsação para ver quão rápido seus corações estão batendo durante o exercício. Você deve procurar fazer com que a sua taxa cardíaca fique dentro de uma certa meta. Seu fisioterapeuta pode dizer qual deve ser a meta no seu caso. Se você quiser descobrir sozinho, é um cálculo simples;

Descobrindo a taxa alvo

• Esse alvo geralmente está entre 60% a 80% do mais duro que seu coração pode trabalhar, (ou da sua taxa cardíaca máxima).
• um guia aproximado da sua taxa cardíaca máxima pode ser obtido pela subtração da sua idade de 220. (por exemplo, uma pessoa com 20 anos de idade terá uma taxa cardíaca máxima de 200)
• 60% de 200 são 120
• 80% de 200 são 160
• Portanto, a faixa de pulsação meta para uma pessoa de vinte anos de idade é de 120-160 batimentos por minuto
• É muito simples aprender como checar seu pulso. Peça a seu fisioterapeuta para te ensinar.

* Essa fórmula não se adapta a todos os pacientes, pois alguns não conseguem elevar sua taxa cardíaca a esses níveis. Os pacientes com FC devem discutir sua meta individual com seu fisioterapeuta de FC.

Adjuste do exercício para uma doença mais grave

Caso sofra de uma doença pulmonar mais grave ou mais avançada, não pense nem por um momento que os exercícios regulares não são para você, mesmo que precise de oxigênio. Seu fisioterapeuta ajustará a duração, freqüência e intensidade do exercício para satisfazer suas necessidades particulares. Se a sua função pulmonar for menos de 55% do que deveria, é aconselhável que você converse com seu fisioterapeuta antes de começar, mas darei alguns exemplos de como ajustamos o exercício para adaptar a necessidades individuais. Os fisioterapeutas chamam esse processo de prescrição de exercício.

Em primeiro lugar, você pode diminuir a duração do exercício e aumentar a freqüência caso ache difícil se exercitar por um tempo muito longo a cada vez. Por exemplo, ao invés de se exercitar por 30 minutos de uma vez, você pode fazer três sessões de 10 minutos espalhadas durante o dia. Uma das coisas que eu às vezes sugiro para que as pessoas comecem é fazer 2 sessões por semana e então aumentar para 3 quando tiver estabelecido uma rotina.

Você também pode ajustar a maneira de monitorar a intensidade do exercício. É possível fazê-lo usando o quão ofegante você fica com o exercício, ao invés de sua meta de taxa de pulsação. Seu fisioterapeuta te ensinará como. Para guiá-lo, você deve trabalhar somente até se sentir moderadamente ofegante. Ou seja, qualquer exercício deve deixá-lo suficientemente ofegante para que consiga falar e se sentir no controle de sua respiração o tempo todo. Caso fique mais ofegante que isso durante o exercício, você deve diminuir o ritmo ou parar e recomeçar somente quando tiver se recuperado. É importante se dar tempo suficiente para se recuperar, para que não precise parar novamente muito depressa.

Seu fisioterapeuta também pode te ensinar técnicas de respiração para ajudá-lo a recuperar o fôlego, mas o melhor conselho é nem chegar a ficar muito ofegante. Algumas dessas coisas podem parecer bastante complicadas, mas seu fisioterapeuta obviamente te dará somente os conselhos específicos para o seu caso e tornará isso muito mais simples.

Eu descobri que um dos principais motivos pelos quais as pessoas com doença mais avançada evitam os exercícios é porque elas temem a falta de ar — têm medo de não conseguirem recuperar o fôlego novamente. Freqüentemente elas sentem que não querem falar sobre esses medos, mas se conseguir falar sobre esses sentimentos com o seu fisioterapeuta e começar um programa de exercícios regulares, você vai perceber que a sua falta de ar deve começar a melhorar e, gradualmente, você conseguirá fazer mais. Quanto menos ofegante você ficar, menos ansioso você estará e pode começar a melhorar sua confiança. Seu fisioterapeuta prescreverá um programa de exercícios voltado para sua capacidade e necessidades. Caso esteja no hospital, o fisioterapeuta provavelmente supervisionará essas sessões, o que freqüentemente te ajuda a começar e te dá a confiança para continuar em casa.

Também descobri que algumas pessoas que ficam muito ofegantes quando fazem exercícios podem ser bastante autoconscientes. Essa pode ser uma das razões pelas quais elas evitam sair para fazer compras ou socializar — e não necessariamente o medo de ficarem ofegantes. Aqui também seu fisioterapeuta pode te aconselhar cobre como controlar sua falta de ar para que você se sinta mais no controle nessas situações.

Devo evitar os exercícios se estiver com problemas para ganhar peso?

A resposta para essa pergunta é não. É óbvio que se exercitar demais para perder peso é uma péssima, mas seguir um programa sensato pode, na verdade, ajudá-lo a ganhar peso. Os exercícios podem produzir uma sensação de bem-estar e ajudar a estimular seu apetite. A chave é obter um aconselhamento adequado, que pode incluir a discussão sobre a possibilidade de suplementos à dieta.

E quanto à reposição de sais, eletrólitos e fluidos nos dias quentes do verão?

As pessoas com FC perdem sais e eletrólitos em excesso com o suor. Portanto, caso esteja se exercitando no calor do verão, você precisa repor os mesmos enquanto bebe mais água. A reposição pode ocorrer de diferentes formas, por exemplo, comprimidos de sais e algumas bebidas esportivas. Pergunte ao seu nutricionista e fisioterapeuta sobre a melhor maneira de evitar a desidratação e a exaustão pelo calor. Às vezes, a letargia e fadiga excessivas podem ser resultado da desidratação e redução drástica de sais e eletrólitos.

Resumo

Sabemos que um estilo de vida sedentário tem um impacto negativo significativo na qualidade de vida e questões de saúde para a população em geral, mas isso também pode ter um impacto significativo no desenvolvimento da FC conforme você envelhece. Como na atualidade a maioria das PCFC continua a ter vidas produtivas após a maioridade, o planejamento da continuação dos estudos e de carreiras após o término da educação é algo que agora se tornou muito importante. Isso se deve a motivos de auto-estima, mas também porque é o primeiro passo para ter um estilo de vida ativo.

Você descobrirá que cada vez mais, se dá ênfase ao exercício e atividade. Seu fisioterapeuta terá um enorme prazer em te dar os conselhos necessários sobre isso e monitorar seu progresso, tanto no hospital quanto na comunidade. Não há dúvida de que levará algum tempo até que os recursos necessários para satisfazer a essas aspirações estejam disponíveis. Espero que as informações que forneci aqui tenham te dado uma idéia sobre como os fisioterapeutas pensam ao prescrever exercícios para PCFC e o que você mesmo pode fazer para dar alguma orientação àqueles que não têm fácil acesso a um fisioterapeuta. Tenha em mente, também, que há outras questões além da FC afetando a sua capacidade de fazer exercícios regularmente sobre as quais você pode precisar de aconselhamento específico, por exemplo, caso você também seja asmático, precisará de aconselhamento sobre como controlar isso durante o exercício. Sempre que possível, procure o aconselhamento do seu médico, enfermeira ou fisioterapeuta quando estiver pensando em se exercitar.

Ninguém está sugerindo que fazer exercícios regulares é particularmente fácil, especialmente se você sofre de uma condição crônica como a FC, mas os benefícios potenciais de fazê-lo tornam importante considerar essa possibilidade. Como fisioterapeutas, estamos aqui para te ajudar e aconselhar e (assim como para fazer terapia quando necessário, é claro). É sua decisão individual o que você faz com esse conselho, mas seu fisioterapeuta te apoiará de todas as formas que puder para que você tenha um estilo de vida tão normal e ativo quanto possível. Os exercícios regulares são decisivos para alcançar isso.

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

 

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