Estudo apresenta o mel de Manuka como possível novo tratamento para Pseudomonas aeruginosa na Fibrose Cística

Categoria: Coluna Científica - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 24 de agosto de 2019

O mel de Manuka, produzido a partir do néctar de uma planta da Austrália e na Nova Zelândia, mostrou importante atividade contra a bactéria Pseudomonas aeruginosa em um experimento que simula a infecção pulmonar em pessoas com Fibrose Cística (FC).

Os resultados foram apresentados no estudo “Atividade antipseudomonas do mel de Manuka e antibióticos em um modelo ex vivo especializado que simula a infecção de pulmão em Fibrose Cística” publicado na revista Frontiers in Microbiology.  

Mais de 80% das pessoas com FC, em algum momento de suas vidas, terão contaminação pela bactéria P. aeruginosa. Esse organismo possui mecanismos de resistência que podem ser inatos ou adquiridos, além da capacidade de formar biofilmes – substância pegajosa, na qual as bactérias se colam umas nas outras, permitindo que elas resistam à ação de antibióticos e da resposta imunológica do corpo.  

Como resultado desse mecanismo, nem sempre é possível eliminar por completo a P. aeruginosa dos pulmões de pessoas com FC, mesmo com tratamentos agressivos. Muitos portadores de FC possuem bactérias multirresistentes, o que faz com que a infecção esteja ligada ao mau prognóstico e infecções persistentes. Por isso, soluções de tratamento que destruam biofilme são urgentemente necessárias. 

 Há muito tempo, o mel Manuka medicinal e esterilizado tem sido usado para cuidar de feridas superficiais, mostrando uma ação excelente contra uma grande variedade de microorganismos resistentes à antibióticos. O mel de Manuka, por exemplo, pode romper com o envelope celular que protege a P. aeruginosa.

O mel de Manuka é monofloral, o que significa que ele é produzido a partir do néctar de uma única espécie de planta – a árvore de Manuka (Leptospermun scoparium). A atividade contra bactérias do mel é pela presença em grande quantidade do composto chamado metilglioxal (MG). O MG também pode ser encontrado na maioria dos tipos de mel, mas apenas em pequenas quantidades.

Os cientistas testaram a atividade contra bactérias do mel Manuka em 28 diferentes amostras isoladas de P. aeruginosa associadas à infecções na FC. Os profissionais compararam a eficácia do mel com outros três antibióticos, muito utilizados: ciprofloxacina, ceftazidima e tobramicina, sozinhos ou combinados.

A atividade antimicrobiana foi medida de duas maneiras: pelo teste de sensibilidade antimicrobiana comum (TSA, feito pelos laboratórios clínicos); e usando dois modelos de pulmão de porcos ex vivo, que usam fragmentos do tecido alveolar e bronquiolar para melhor imitar o ambiente pulmonar em pessoas com FC.

Nos experimentos TSA, a maioria das amostras de P. aeruginosa era sensível à tobramicina (20 de 28), mas resistentes à ciprofloxacina (17 de 28) e à ceftazidima (15 de 28). Em contraste, todos os casos diminuíram em 16% a 32% pela aplicação do concentrado de mel Manuka. Quatro dos isolados foram resistentes a todos os antibióticos testados, mas foram inibidos pelo mel de Manuka. No entanto, a combinação de mel Manuka e antibióticos não teve efeito contra a maioria das amostras testadas.

Usando os dois modelos de pulmão, o mel Manuka reduziu 64% dos casos isolados, enquanto quantidades anormalmente altas de antibióticos não conseguiram. A combinação de mel de Manuka e antibióticos mostrou aumento da atividade antimicrobiana nesses modelos – 90% das bactérias testadas foram eliminadas.

“Os resultados preliminares são muito promissores e devem ser replicados no ambiente clínico. Isso pode abrir novas opções de tratamentos adicionais para as pessoas com FC e infecções” afirmou Rowena Jenkins, PhD, autora do estudo e professora de microbiologia e doenças infecciosas em Swansea University, no Reino Unido. 

Uma limitação da descoberta, observada pela equipe, foi  a dificuldade em levar o mel Manuka até o interior do pulmão. A nebulização pode não funcionar, porque é improvável que as concentrações necessárias cheguem até os tecidos pulmonares. Segundo os pesquisadores, “as concentrações em torno de 40% (peso/volume) poderiam ser alcançadas, entretanto, a eficácia nessa concentração precisar ser testada experimentalmente”. 

Uma possível aplicação mais imediata poderia ser o uso do mel Manuka incorporado na solução de lavagem sinusal, para limpar os reservatórios de infecção da cavidade do sinos nasais, impedindo a migração de bactérias da via aérea superior para os pulmões. A Swansea University está incentivando a realização de um estudo clínico para testar essa abordagem.

“A integração com os antibióticos e ausência de resistência identificadas no laboratório permitiram que o estudo avançasse para o ensaio clínico. Assim, vamos investigar o potencial do mel de Manuka como parte do tratamento para infecções nas vias aéreas”, disse Jenkins. Entretanto, esses resultados ainda são experimentais e foram encontrados no laboratório, ainda faltam muitos passos e investigações para a aprovação do uso em pessoas com FC. 

Fonte: MOLANO, A. Manuka Honey Could Be Used to Treat CF Lung Infection P. Aeruginosa, Study Suggests. Cystic Fibrosis News Today. 5 de junho de 2019. Disponível em:https://cysticfibrosisnewstoday.com/2019/06/05/manuka-honey-fight-cystic-fibrosis-lung-infection-p-aeruginosa/

Tradução: Julianna Rodrigues Beltrão, acadêmica do 9º período de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); presidente da Liga Acadêmica de Humanização do Cuidado em Saúde (LAHCS); atua no setor de Psicologia e Projetos do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística.

Revisão: Verônica Stasiak Bednarczuk de Oliveira, psicóloga – CRP 08/16.156, especialista em análise do comportamento, fundadora e diretora geral do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística, diagnosticada com FC aos 23 anos de idade. 

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

Você vai gostar também...

Newsletter

Assine o nosso boletim informativo mensal. Clique aqui