Novo teste para análise do muco em pessoas com Fibrose Cística

Categoria: Coluna Científica - Postador por: Comunicação IUPV - Data: 10 de agosto de 2019

Um novo teste tem permitido avaliar várias propriedades do muco que se acumula nos pulmões de pessoas com Fibrose Cística (FC) e outras doenças pulmonares. Com esse teste será possível ajudar a encontrar tratamentos — ou combinação de tratamentos — que favoreçam a tosse como uma maneira mais viável de eliminação do muco das vias aéreas.

Desenvolvido por pesquisadores na University of North Carolina at Chapel Hill, o teste foi apresentado no estudo “Roles of mucus adhesion and cohesion in cough clearance” (Funções da adesão e da coesão do muco na depuração por meio da tosse) publicado na revista  Proceedings of the National Academy of Sciences.

A eliminação do muco pulmonar é um mecanismo fundamental para a proteção do corpo contra microorganismos e partículas potencialmente nocivas, isso porque o muco atua para capturar patógenos. Mas em doenças como a FC, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e asma, esse sistema de eliminação é deficiente e o acúmulo resultante do espessamento do muco no interior dos pulmões pode causar infecções e compromete a função respiratória.

A eliminação eficiente do muco depende da atividade normal das células que revestem as vias aéreas, mas também da água e do conteúdo iônico do muco, e do equilíbrio correto das moléculas aderentes, as chamadas mucinas.

Para melhor entender o mecanismo de remoção do muco por meio da tosse, os pesquisadores desenvolveram um teste de revestimento (o peel test assay) que imita várias características das células que revestem as vias aéreas, usando tecido de indivíduos com e sem a FC. 

Foram coletadas células de revestimento das vias aéreas dos pulmões de pessoas com a doença, as quais foram cultivadas em laboratório. Em seguida, foram incorporadas pequenas malhas nas culturas de células com o objetivo de ligá-las firmemente ao muco. As malhas foram conectadas a um motor com um sensor de força, para medir a força necessária para puxar e romper o muco.

Usando essa técnica, os pesquisadores puderam estudar as forças de aderência e de coesão do muco, e explorar maneiras de facilitar a sua expulsão.

“As ferramentas desenvolvidas nesse estudo nos ajudarão a testar estratégias para melhorar a purificação do muco em várias doenças importantes onde a limpeza é falha”, Dr. Brian Button, PhD, professor associado na UNC e principal autor do estudo, disse em um comunicado de imprensa da universidade.

A eliminação do muco por meio do  fluxo de ar da tosse ocorre ou pela falta de coesão, que envolve a quebra da camada de muco através da ruptura das cadeias de mucina (que são as proteínas que dão ao muco a propriedade semelhante à do gel), ou por falta de adesão que requer a quebra de ligações das células mucosas.

Os experimentos mostraram que em pessoas com FC, que apresentam muco cerca de 20% mais concentrado em matéria orgânica, a força e a velocidade de deslocamento do muco são muito maiores. Essa descoberta ajuda a explicar por que as pessoas com FC frequentemente não conseguem expelir o muco dos pulmões por meio da tosse.

“Descobrimos que as forças de adesão e coesão do muco aumentam quando a proporção de mucinas em relação à água é maior que o normal”, disse Button, que também é membro do Centro de Pesquisa e Tratamento de Fibrose Cística da UNC-Chapel Hill. “No muco da FC, essas forças são maiores do que as forças produzidas pela tosse.”

Mas ao olhar para a interação das células mucosas das vias aéreas, os pesquisadores não viram diferenças na força de adesão entre as amostras das pessoas com e sem FC em relação com a mesma concentração de muco.

As análises da força de coesão coletadas de pessoas com FC e DPOC com diferentes gravidades das doenças mostraram que uma força de coesão maior estava estreitamente relacionada com a concentração de muco, mas não era dependente do tipo de doença.

Em seguida, usando o mesmo teste de revestimento, a equipe testou abordagens de tratamento que incluíram agentes hidratantes (como soluções de soro fisiológico inalável e de soro fisiológico hipertônico) e agentes mucolíticos clássicos (medicamentos para afinar o muco).

Observou-se que a solução salina para hidratar o muco reduz significativamente as forças de adesão e coesão do muco na FC, assim como reduziu sua concentração pela metade. A acetilcisteína, um agente mucolítico que pode evitar a formação e ligação de cadeias de mucina normais, também reduziu efetivamente as forças de adesão/coesão do muco na FC, permitindo uma desobstrução mais fácil.

Esses resultados sugerem que o uso de agentes hidratantes e mucolíticos, ou ambos combinados, em pessoas de FC poderia ajudar na expulsão do muco por meio da tosse.

“A eficácia da tosse pode ser promovida mais efetivamente pela restauração das concentrações de muco a limites normais pelos agentes hidratantes juntamente com agentes de redução de viscosidade”, escreveram os pesquisadores.

“Nossa pesquisa sugere que essa abordagem teria o potencial de permitir que a tosse se tornasse benéfica para essas pessoas com FC”, acrescentou Button.

A equipe planeja utilizar o seu sistema de teste de revestimento experimental a fim de estudar as propriedades do muco e os efeitos das terapias em outras doenças pulmonares.

Fonte: MELÃO, A.  New Test of Mucus Properties May Help with Coughing and Airway Clearance in CF. Cystic Fibrosis News Today. 16 de Novembro de 2018. Disponível em:https://cysticfibrosisnewstoday.com/2018/11/16/new-test-of-mucus-properties-may-help-with-coughing-and-airway-clearance-in-cf/

Traduzido por Vera Carvalho, voluntária de tradução para o Instituto Unidos pela Vida. Vera é tradutora profissional com especialidade na área científica (carvalho.vera.carvalho@gmail.com).

Revisão: Verônica Stasiak Bednarczuk de Oliveira, psicóloga – CRP 08/16.156, especialista em análise do comportamento, fundadora e diretora geral do Unidos pela Vida – Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística, diagnosticada com FC aos 23 anos de idade. 

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

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