O que é Mutação?

Categoria: Entendendo a Fibrose Cística - Postador por: Instituto Unidos pela Vida - Data: 29 de abril de 2010

Falaremos neste texto sobre uma palavra que assusta muita gente: mutação.

Mais importante do que explicar a definição biológica de mutação, o que queremos com essa explicação é mostrar por que uma única alteração em um único gene nos mais de 24 mil que temos nas nossas células pode determinar uma doença que atrapalha tanto o funcionamento do organismo das pessoas com FC. Vamos tentar explicar também por que há pessoas com FC que apresentam complicações logo que nascem e pessoas que passam um longo período sem apresentar sintomas importantes.

Esperamos que gostem!

Biólogo Cristiano Silveira e Psicóloga Verônica Stasiak.
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O que é um mutante? Um personagem das histórias em quadrinhos X-men? Um monstro horrível de um filme de terror? Na nossa cultura os mutantes são geralmente “do mal”, mas mesmo na ficção há mutantes “do bem”. São os “diferentes”. Na natureza as mutações não tem intenção (não são boas ou más por si sós). As mutações são eventos naturais que ocorrem a todo o tempo. As mutações são o combustível da evolução. Se não fossem as mutações seríamos ainda pequenos organismos compostos de uma única célula vivendo nas profundezas do oceano, à deriva. Ao longo dos milhões de anos que separam o surgimento da vida na terra até o aparecimento da nossa espécie no planeta, muitas mutações modificaram os corpos das diferentes criaturas vivas tornando-as mais aptas às condições ambientais. E por que então algumas mutações são “do mal”? Ora, porque elas acontecem por acaso e o que decide se elas vão permanecer ou desaparecer são as habilidades que elas nos conferem.

Ficou confuso? Estamos dizendo que a mutação que determina a FC pode ser vantajosa? Bem, essa é uma das explicações para as mutações mais comuns da FC serem tão fequentes na população mesmo representando uma característica negativa para o indivíduo homozigoto (que carrega duas cópias da mutação). Acontece que tudo indica que os heterozigotos (aqueles que chamamos de portadores), tiraram alguma vantagem da presença dessa mutação em algum momento da nossa história. A suspeita é que a mutação para FC tenha determinado uma maior resistência à doenças comuns na Europa da Idade Média. Isso explicaria a grande incidência da FC naquele continente e a predominância da doença na etnia branca. O mesmo acontece com a doença falciforme que nos homozigotos confere uma doença severa e nos heterozigotos confere uma resistência natural à malária e explica a grande incidência da doença falciforme no continente africano e, consequentemente, na população negra.

Mas e aí? Tem as mutações, mas o que elas fazem?

Primeiro temos que saber que o gene da FC é responsável por produzir uma proteína que chamamos CFTR. A proteína CFTR forma um canal que atravessa a membrana plasmática, que é o envoltório das nossas células. Existem milhares desses canais na membrana das células responsáveis por colocar substâncias para dentro e para fora da célula, regulando suas funções.

Imagine a membrana da sua célula como um daqueles letreiros luminosos, como esse aqui ao lado. Eles são cheios de luzinhas que juntas formam as letras, os números, enfim, as mensagens. Pois imagine que as proteínas CFTR são as pequeninas lâmpadas que compõem esse painel.

As centenas de mutação da FC conhecidas são divididas em cinco classe diferentes conforme o defeito que causam nas nossas “lâmpadas” (proteínas CFTR).

Agora vamos pensar o seguinte: as mutações da classe I fazem com que as lâmpadas não sejam produzidas pela fábrica;  as mutações da classe II fazem com que as lâmpadas saiam de fábrica com defeito e o controle de qualidade da fábrica se encarrega de destruí-las. Essas duas classes de mutações são, geralmente, associadas a quadros mais graves da doença. A mutação delta F508, a mais comum pertence a classe II.

Acontece que além da quantidade de luzinhas ligadas é importante também que elas funcionem bem. Há mutações que produzem luzinhas que simplesmente não acendem. Essas mutações são as da classe III. As lâmpadas saem da fábrica, são colocadas no painel, mas não funcionam.

Há ainda mutações que produzem lâmpadas fracas (classe IV). E há ainda mutações que produzem lâmpadas diferentes, mas tão boas quanto as normais, nesse caso o problema é que a fábrica produz poucas lâmpadas (classe V). Nessa classe de mutação as lâmpadas funcionam perfeitamente, mas podem haver poucas lâmpadas no nosso painel.

É importante saber a classe da minha mutação? Atualmente a informação de que tipo de mutação é responsável pela sua FC dificilmente implicará na mudança do tratamento que você recebe. Acontece que os pesquisadores estão desenvolvendo uma série de medicamentos ou estratégias diferentes para tratar diferentes classes de mutações. Essas pesquisas estão em andamento no mundo todo, algumas mais adiantadas, outras nem tanto.

A maioria dos estudiosos acredita que esses tratamentos possam ser uma resposta ao que eles chamam de “defeito básico”.

Essas novas abordagens serão matéria de uma outra conversa por aqui, aguardem!

Genótipo X Fenótipo

As diferenças nas classes de mutações ajudam a entender por que algumas pessoas têm sintomas muito jovens e outras não; por que alguns têm doença pulmonar e outros digestiva; por que há casos mais graves e outros ditos leves ou até mesmo assintomáticos.

Acontece que o tipo de mutação não é o único fator a determinar a gravidade ou a forma da doença e para entender isso precisamos entender outras duas palavrinhas da biologia. Chamamos de genótipoconjunto de letrinhas do código genético e defenótipo o texto inteiro. Agora, imagine o seguinte: Duas pessoas alfabetizadas e com o mesmo grau de escolaridade resolvem escrever um livro. Ainda que elas escrevam no mesmo idioma e compartilhem o gosto e talento pela escrita, elas jamais escreveriam dois livros iguais. Cada um tem um estilo próprio, particular, de se expressar. O mesmo acontece com o nosso DNA (conversa passada, lembram?).

Há muito mais coisas envolvidas no complicado funcionamento do nosso organismo do que aquilo que está escrito na gigantesca sequência de apenas quatro letrinhas (GATTACA…) que compõem o nosso código genético. Nosso genótipo explica em grande parte “quem” somos, mas “como somos” depende de muitos outros fatores.

A conclusão mais óbvia a que chegamos com tudo o que lemos acima é que não há uma única Fibrose Cística. Nenhuma generalização em FC é possível. Por isso, é muito importante ter calma ao receber um diagnóstico. Ninguém pode falar em prognóstico, sobrevida ou qualquer um desses termos terríveis sem saber como a doença se comportará naquela pessoa. Cada um é cada um e cada qual é cada qual! Existem aproximadamente 1.500 mutações para a Fibrose Cística.

Mesmo entre irmãos gêmeos a doença se comporta muitas vezes de maneiras diferentes o que nos dá a certeza de que não há certezas. Há muito ainda por aprender, por estudar. O importante, sempre, é seguir todos as informações passadas por seu médico, que entende o SEU caso, e que te trata como indivíduo único, com suas peculiaridades.

Esperamos que tenham gostado!
Aprenderemos um pouco mais juntos nas próximas conversas.
Até lá!

Cristiano e Verônica.

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

 

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