imagesPor Dra. Maria Ângela Ribeiro, colunista do portal do Instituto Unidos pela Vida, Fisioterapeuta pela Universidade Metodista de Piracicaba. Mestre em Farmacologia pela Unicamp. Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente pela FCM/Unicamp. Coordenadora do setor de Fisioterapia do Departamento de Pediatria da FCM/Unicamp. Coordenadora de Pesquisa do Laboratório de Fisiologia Pulmonar (LAFIP) do Centro de Investigação em Pediatria (CIPED) da FCM/Unicamp.

Certamente, se você está lendo este texto e tem Fibrose Cística ou tem um familiar com a doença, já ouviu falar na importância da Fisioterapia Respiratória para quem tem FC.

Mas, você sabia que um dos primeiros relatos sobre a atuação da fisioterapia respiratória na fibrose cística é de 1959? Você pode consultar este artigo neste link: http://www.cfmedicine.com/history/fifties.htm

Nele, o autor Shwachman menciona que a fisioterapia ativa foi instituída em sua clínica em 1957, e considera que é um dos lançamentos mais importantes para o regime de tratamento.¹ Apesar de um relato mais antigo, sua importância é super atual!

Como sabemos, a fibrose cística (FC) é uma enfermidade multissistêmica complexa, que precisa da atuação e da atenção de diversas especialidades da área da saúde para o seu manejo mais efetivo, e que vai contribuir para a melhora na qualidade de vida de quem tem FC.

O cenário brasileiro de aproximadamente 30 anos atrás era de pouco conhecimento, poucas pessoas trabalhando com a doença, poucos centros especializados, pouco material didático disponível para profissionais e pacientes e seus familiares e nenhum ensino nas escolas médicas e de fisioterapia.

No Brasil, o tratamento da FC ganhou maior evidência e foi produto do esforço significativo das associações de pais representados pela ABRAM (Associação Brasileira de Assistência a Mucoviscidose), e, da fundação do Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística (GBEFC) em 2003.

Atualmente, o manejo da FC no Brasil tem se tornado cada vez mais eficiente, com medidas para a promoção da educação continuada, diagnóstico precoce e tratamento multidisciplinar.

A fisioterapia respiratória é considerada “viga mestra” no tratamento das manifestações respiratórias na FC, sendo imprescindível na composição da equipe multidisciplinar dos centros especializados.

O objetivo da fisioterapia respiratória é promover a limpeza das secreções das vias aéreas de forma a manter e/ou melhorar a função pulmonar, prevenir infecções brônquicas e diminuir a progressão da doença pulmonar.

Na composição da equipe dos centros especializados no tratamento da FC, o fisioterapeuta é um membro integrante da equipe multidisciplinar com perfil de atuação claramente definido na condução e orientação de:

  • Terapias inalatórias: indicação dos aparelhos mais adequados, treinamento dos pais e pacientes quanto ao uso, manutenção e limpeza.
  • Técnicas de limpeza brônquica: escolha das técnicas mais adequadas e treinamento dos familiares e pacientes.
  • Atividade física: indicação, orientação e monitoramento.
  • Educação: ensino, treinamento e atualizações sobre novas técnicas fisioterapêuticas aos pais, pacientes e outros fisioterapeutas envolvidos.
  • Medidas para assegurar e encorajar a adesão ao tratamento dos pacientes e familiares.

Via de regra, um programa de tratamento fisioterapêutico deve ter como principais objetivos:

  • A desobstrução brônquica diária, com consequente melhoria da ventilação de todos os segmentos pulmonares, a fim de minimizar os efeitos da doença e preservar a função pulmonar.
  • Auxílio na adaptação e adesão ao uso de ventilação mecânica não invasiva e oxigenioterapia.
  • Intensificação do tratamento nas exacerbações da infecção pulmonar.
  • Manutenção de um adequado alinhamento postural, para prevenir complicações músculo esqueléticas.
  • Estimulação da atividade e resistência física para uma boa qualidade de vida
  • Aplicação de protocolos de avaliações baseados em escores de gravidade e exacerbações.
  • Realização de treinamentos frequentes dos pais e pacientes.
  • Prevenção e tratamento da incontinência urinária e suporte durante a gravidez.
  • Cooperação com pacientes e familiares para a realização dos ajustes ao tratamento de maneira individualizada

Pacientes que não realizam acompanhamento fisioterapêutico profissional com frequência devem realizar uma sessão de terapia a cada visita ao centro de referência o que acontece em geral 4 vezes ao ano. Além disso, os pacientes devem realizar uma avaliação fisioterápica completa uma vez ao ano para ajustes na indicação das técnicas bem como para identificação de baixa adesão ao tratamento. Então, se você faz sua fisioterapia em casa, não deixe de seguir essas orientações e buscar ajuda de um profissional!

Como a manifestação da doença pulmonar na FC apresenta diferentes graus de gravidade, não é indicado definir um tratamento fisioterapêutico específico e único para todos os pacientes. Cabe ao profissional escolhido pela família discutir e apresentar as propostas individualizadas e ajustá-las ao seu paciente. Vale ressaltar que nenhum tratamento é efetivo se não for realizado regularmente, ou seja, a adesão à fisioterapia é fundamental!

A adesão à fisioterapia respiratória é variável, mas, infelizmente, é frequentemente baixa tanto no Brasil como em outros países. Isso acontece porque o tratamento diário despende muito tempo, não apresenta resultados imediatos, além de ser maçante e tedioso. Mas, não esqueça: apesar disto, ela é fundamental para a sua saúde!

A adesão ao tratamento requer completa compreensão da indicação das modalidades terapêuticas, além de uma boa aproximação entre o fisioterapeuta e seu paciente. Ela pode ser melhorada por:

  • Indicação de técnicas que melhor se ajustem à idade, à manifestação da doença pulmonar e à condição socioeconômica do paciente e seus familiares.
  • Acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do paciente, garantindo o treinamento das técnicas de maior independência durante a terapia de desobstrução brônquica domiciliar.

Indica-se que a fisioterapia respiratória seja iniciada a partir do diagnóstico. Segundo o último Registro Brasileiro de Fibrose Cística de 2014 disponibilizado no site do Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística (GBEFC) http://portalgbefc.org.br/relatorios-anuais-rebrafc, a idade do diagnóstico foi significativamente menor em 2014 comparada a 2009, principalmente após o estabelecimento da triagem neonatal em vários estados brasileiros. Uma informação importante extraída do relatório é a de que aproximadamente 60% do diagnóstico foi por sintomas respiratórios persistentes.

Hoje, um número grande de técnicas de fisioterapia respiratória compõe o arsenal terapêutico para o tratamento do paciente. As técnicas são conhecidas como técnicas passivas, ativas e instrumentais e devem ser indicadas e ajustadas aos pacientes conforme suas necessidades e sempre monitoradas e orientadas pelo fisioterapeuta.

É de consenso entre os cientistas e profissionais de fisioterapia que não existe uma técnica de desobstrução brônquica que seja superior a outra e desta maneira, a prescrição das técnicas de limpeza brônquica deve ser individualizada, considerando fortemente a preferência do paciente na realização da técnica. A melhor técnica é aquela que é realizada!

Na próxima coluna científica, abordaremos quais são as principais técnicas fisioterapêuticas!

Referências

  • 1: Doyle B. Physical therapy in treatment of cystic fibrosis. Phys Therapy Rev 1959; 39:24 – 27
  • Lannefors L et al. Physiotherapy in infants and young children with cystic fibrosis: current practice and future developments. Journal of the Royal Society of Medicine 2004; (Suppl 44): 8-25.
  • Button BM et al. Physiotherapy for cystic fibrosis in Australia and New Zealand: A clinical practice guideline. Respirology 2016; 21, 656 –667.
  • Flume PA et al. Cystic Fibrosis Pulmonary Guidelines: Airway Clearance Therapies. RESPIRATORY CARE  2009; (54), 522-537.
  • McIlwaine M, Bradley J, Elborn JS, et al. Personalising airway clearance in chronic lung disease. Eur Respir Rev 2017; 26: 160086

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

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