IMG-20160925-WA0050 (1)Por Verônica Stasiak Bednarczuk, psicóloga, fundadora do Instituto Unidos pela Vida e diagnosticada com Fibrose Cística aos 23 anos

Todos nós já ouvimos muito falar a palavra MOTIVAÇÃO. Mas, o que ela significa de fato? Poderíamos resumir como sendo algo que te motiva à ação, ou seja, você sente-se tão motivado para atingir determinado objetivo, que age e faz o que for preciso para tal.

Motivação também é um termo super usado em livros e cursos de administração, palestras empresariais, além de diferentes áreas da Psicologia. Ela pode ser utilizada em diferentes contextos, e abraçar diferentes significados. Por sua vez, a motivação é encarada também como uma espécie de “força interna” que emerge, regula e sustenta todas as nossas ações mais importantes. Mas, justamente por ser uma força interna, nós não conseguimos definir em único conceito o que é motivação, por ser extremamente particular. Cada um motiva-se por algo que deseja atingir e por isso desenvolve forças e ações muito peculiares para tal.

Mas, o que te motivou à chegar onde você chegou? O que te motiva a trabalhar todos os dias, estudar, economizar, etc? Digamos que você queira ir à Paris… (nada mal, hein?!) Para isso, precisará economizar um pouco mais, e quem sabe abrir mão de outras coisas que goste. Como diz o ditado: a cada escolha, uma renúncia. Mas a sua vontade de ir à Paris é tão grande, que você não importa-se em deixar de jantar fora, deixar de ir ao cinema ou de comprar algo novo, somente pelo fato de que precisa economizar para realizar algo maior. Isso é motivação: Você está motivado à realizar um sonho, e por conta dele deixa de fazer outras coisas, ou, faz outras que precisa (como trabalhar mais, por exemplo). Os autores Rogers, Ludington e Graham (1997) dizem que sempre que sentimos um desejo ou necessidade de algo, estamos em um estado de motivação. Motivação é um sentimento interno, é um impulso que alguém tem de fazer alguma coisa.

Se fossemos definir a motivação em um “ciclo”, seria mais ou menos assim: Você tem um desejo, por conta dele está motivado à realizá-lo. Para isto, muda o seu comportamento e ações para que possa atingi-lo. Passado um tempo, devido ao seu esforço e motivação, você realiza o seu desejo. Mas, o ciclo não acaba aí. Nossa vida é feita de sonhos, desejos e vontades. E, por conta disso, nasce um novo desejo, e o ciclo recomeça. Quando você era pequeno, seu sonho era andar de bicicleta sem rodinha, por exemplo. Depois, vieram outros sonhos, outros desejos, e outros esforços para realiza-los, certo? Isso é a nossa vida. 

Mas, e na vida de quem tem Fibrose Cística, como isso deve funcionar? Exatamente igual. Nós também temos sonhos e desejos, certo? Eu, por exemplo, tenho como sonho neste momento ser mãe. Ser mãe é o que me motiva agora. E por conta deste sonho, tenho mudado meu comportamento para que então eu possa atingi-lo. Contarei sobre isso mais pra frente.

Parte importante do meu “ciclo da motivação” como falamos há pouco, é a minha adesão ao tratamento. Vou dar outro exemplo antes de explicar melhor isto.

Imagine que um atleta quer completar um Iron Man, uma das provas mais difíceis que existem. Ele precisará nadar 3,8 km, pedalar 180 km e correr 42 km! É uma baita prova, que exigirá muito treino, dedicação e motivação antes de realizá-la. Provavelmente, todos os dias o atleta passará por um regime intenso de treinamento, alimentação, e outras atividades que o ajudarão à realizar este sonho. E ele não desistirá enquanto não realizar. Se quiser ver um caso real disto, assista “100 Metros”, disponível no Netflix. Esse emocionante filme relata a preparação de um rapaz com Esclerose Múltipla para seu primeiro Iron Man. Prepare os lenços, ok?

Juntando os pontos, além do super treinamento para a prova que o rapaz do filme 100 metros precisou ter para realizar seu sonho, ele também precisou conciliar seu tratamento para Esclerose Múltipla. E isso fazia parte natural da sua rotina, do seu ciclo da motivação para realizar seu sonho de completar um Iron Man. Mesma coisa para nós, que temos Fibrose Cística. No meu caso, como comentei há pouco, quero muito ser mãe. Para isso, preciso fazer atividade física para melhorar minha capacidade respiratória, preciso fazer fisioterapia respiratória todos os dias para manter meu pulmão limpo e livre de infecções, preciso fazer as inalações diárias, ingerir todas as medicações necessárias e, enfim, aderir adequadamente à minha rotina de tratamentos. Isso é parte importante da realização deste meu sonho, afinal de contas, preciso estar super bem para realizá-lo e preciso também me manter bem por muitos e muitos anos após a realização!

O que quero resumir, portanto, é que devemos entender a adesão ao tratamento diário da Fibrose Cística como meio e como investimento de tempo para realização dos grandes objetivos, e não como a razão da vida.  Quando te perguntarem “quanto tempo você GASTA” com seu tratamento, responda “eu não gasto nada. Eu invisto tempo no meu futuro”. Afinal, todo mundo, tendo ou não FC, precisa investir tempo no futuro cuidando da saúde, da alimentação, da prática de exercícios, etc. No fundo, todo mundo precisa se cuidar, não é?

Recentemente perguntei à algumas pessoas com FC o que as motivava à aderir ao tratamento. As respostas foram lindas:

“A vontade de querer viver cada vez mais. Faço de 5 a 7 inalações diárias e reabilitação pulmonar para chegar ao transplante da melhor forma possível. Quero viver, viver e viver.” (B.M, 22 anos)

“Me motiva pois sei que se eu não fizer, vou piorar. Meu sonho é perder o medo de passar mal, inclusive quando viajo, e ter mais segurança em mim.”
(A.C.P, 37 anos)

“Saber que se eu não fizer o tratamento de forma correta e assídua eu vou perder minha liberdade. Meu sonho é ser saudável por muito tempo, quero ficar bem para trabalhar bastante e viajar muito.” (V.N, 33 anos)

“Eu preciso estar em dia com minha saúde para conseguir realizar as metas que propus para esse ano. Eu sonho em ter uma vida normal e meu maior foco é ser uma pessoa que pode ir ao banheiro sem ser notada.” (T.O, 29 anos)

“O que me motiva a fazer o tratamento é minha família e ver meu filho crescer.” (A. A., 37 anos)

“O que me motiva é saber que terei um futuro melhor, podendo fazer as coisas que gosto, além de ver o quanto eu mudei depois da adesão.” (T.S, 25 anos)

Por fim, sugiro que você sempre lembre desses pontos abaixo:

  • Adesão é um processo compartilhado por cuidadores, por profissionais, por amigos e colegas. Não carregue essa bagagem sozinho. Peça ajuda!
  • Adesão é um meio para que você possa realizar seus sonhos! Criem um plano junto com sua família e seus profissionais de saúde. O que você quer ser? O que você deseja realizar? E, a cada “preguiça” pra fazer uma inalação ou fisioterapia, lembre: eu preciso estar bem pra realizar meu sonho.
  • Compreenda que cada etapa do seu tratamento é fundamental! Não sabe para que serve a inalação ou algum medicamento? Pergunte para seu médico, para seu fisioterapeuta, enfim. Saiba o que está acontecendo e para que serve cada etapa. Ficará mais fácil entender a importância de tudo.
  • Não deixe de lado os seus “ajudantes”: faça tabelas com todos os medicamentos e terapias do dia e marque um X a cada realização para não se perder; faça calendários; coloque alarmes no celular.
  • E, quando começar a ficar “pesado” ou desmotivado, converse com seus amigos, familiares e profissionais. Divida sua angustia, converse, chore, mas, não esqueça de retomar seu objetivo maior, seu sonho grande!

Nunca esqueça que a Fibrose Cística é parte do que somos, não o limite do que podemos ser. Desejo uma vida cheia de sonhos e realizações à você! Força, fé e coragem!

  • BISHAY, L. C., & SAWICKI, G. S. (2016). Strategies to optimize treatment adherence in adolescent patients with cystic fibrosis. Adolescent Health, Medicine and Therapeutics7, 117–124. http://doi.org/10.2147/AHMT.S95637
  • COELHO, C. R; AMARAL, V. L. A. R.; Análise dos comportamentos de adesão ao tratamento em adultos portadores de diabetes mellitus tipo 2, Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, São Paulo, Vol. XIV, n. 1, p. 4-15, 2012. Disponível em: http://www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/view/488
  • DELAMATER, A. M.  (2006).  Improving patient adherence.  Clinical Diabetes. 24 (2): 71– 77.
  • KRENCH, D. & CRUTCHFIELD, R. S. (1959). Elements of psychology. New York: Alfred A. Knopf.
  • KVAM, C. Counterpoint: Confronting the challenge of non adherence: Bulding patient-provider relationships – a patient´s perspective. Journal of Cystic Fibrosis 16 (2017) – 306 – 307.
  • MORAES, A. B. A; ROLIM, G. S.; JUNIOR, A. L. C.;  O processo de adesão numa perspectiva analítico comportamental, Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, São Paulo, Vol. 11, n. 2, p. 329-345, 2009. Disponível em: http://www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/view/408/302
  • Shakkottai, A., MD,1 Kidwell, K. M., PhD,2, Townsend M., BA,3 and  Nasr, S. Z., MD,CPI1*, A Five-Year Retrospective Analysis of Adherence in Cystic Fibrosis, Pediatric Pulmonology 50:1224–1229 (2015).
  • SAWICKI, G. S., REN, C. L., KONSTAN, M. W., MILLAR, S. J., PASTA, D. J., & QUITTNER, A. L. (2013). Treatment Complexity in Cystic Fibrosis: Trends over Time and Associations with Site-Specific Outcomes. Journal of Cystic Fibrosis : Official Journal of the European Cystic Fibrosis Society12(5), 461–467. http://doi.org/10.1016/j.jcf.2012.12.009
  • SAWICKI, G. S., HELLER, K. S., DEMARS, N. and ROBINSON, W. M. (2015), Motivating adherence among adolescents with cystic fibrosis: Youth and parent perspectives. Pediatr Pulmonol, 50: 127–136. doi:10.1002/ppul.23017
  • TODOROV, J. C.; MOREIRA, M. B.. O conceito de motivação na psicologia.  Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva,  São Paulo ,  v. 7, n. 1, p. 119-132, jun.  2005 .  
    Disponível http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452005000100012&lng=pt&nrm=iso.
  • VERNON, M. D. (1973). Motivação humana. Tradução de L. C. Lucchetti. Petrópolis: Vozes. (trabalho original publicado em 1969).

Nota importante: As informações aqui contidas tem cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e ou, o tratamento médico. Em caso de dúvidas fale com seu médico, ele poderá esclarecer todas as suas perguntas.

 

 

 

 

 

 

Compartilhe!

Nenhum comentário

Você pode enviar o primeiro comentário.

Deixe um comentário

Por favor, digite os caracteres desta imagem na caixa de entrada

Digite os caracteres para enviar seu comentário