Grande estudo americano confirma o poder dos moduladores de CFTR em salvar vidas das pessoas com fibrose cística

Comunicação IUPV - 26/05/2026 09:00

Medicamentos reduzem em 66% o risco de morte por fibrose cística ao longo de 8 anos

Pessoas com fibrose cística (FC) tratadas com moduladores de CFTR têm um risco de morte significativamente menor do que pacientes não tratados, com uma redução geral de 66% ao longo de oito anos, segundo um grande estudo realizado com base em dados de registros americanos. O benefício na sobrevida foi semelhante em homens e mulheres.

“Nosso estudo é o maior já realizado com base em registros de pacientes, com o mais longo período de acompanhamento longitudinal já conduzido para examinar a efetividade real dos moduladores de CFTR sobre o risco de morte”, afirmaram os pesquisadores da Universidade Johns Hopkins. “Uma melhor compreensão do efeito dessas terapias sobre a mortalidade permitirá que as pessoas que vivem com FC, seus familiares e os profissionais de saúde tenham expectativas realistas sobre a sobrevida e possam planejar e alocar cuidados e recursos de forma adequada, à medida que as necessidades mudam com o aumento da expectativa de vida.”

O estudo, intitulado “Effectiveness of CFTR modulator therapy on risk of death for individuals with cystic fibrosis”, foi publicado na revista científica CHEST.

Os moduladores de CFTR atuam em mutações específicas que causam a doença

A FC é causada por mutações genéticas que resultam na perda ou disfunção da proteína CFTR, levando ao acúmulo de muco espesso e pegajoso em diversos órgãos. Os sintomas da FC afetam principalmente os sistemas respiratório, digestivo e reprodutivo.

Os moduladores de CFTR são uma classe de medicamentos utilizados para tratar a FC em pessoas com mutações específicas causadoras da doença. Eles atuam aumentando a funcionalidade da proteína CFTR, ajudando a aliviar os sintomas e a retardar a progressão da doença.

“Os ensaios clínicos com terapias moduladoras de CFTR têm se concentrado em desfechos que podem ser capturados em períodos de acompanhamento relativamente curtos”, escreveram os investigadores. Em contraste, “a efetividade das terapias moduladoras de CFTR sobre a sobrevida ainda não foi completamente descrita.”

O risco de morte variou conforme a idade de início do tratamento

Para aprofundar a questão, a equipe utilizou dados do Registro de Pacientes da Cystic Fibrosis Foundation dos EUA, cobrindo o período de 2012 a 2022. Os participantes atendiam aos critérios de elegibilidade por idade e perfil genético a partir de 2020.

Ao todo, 25.103 pacientes que realizaram 178.835 consultas clínicas ou por telemedicina foram incluídos. Desses, 18.056 iniciaram o uso de moduladores de CFTR. Quase todos (98%) apresentavam uma variante genética grave. A grande maioria tinha pelo menos uma cópia da mutação F508del (92%), a mutação causadora de FC mais comum.

No total, 3.797 pacientes (15%) morreram durante o acompanhamento. Em comparação com os pacientes não tratados, aqueles que receberam moduladores de CFTR apresentaram menor risco de morte em 1 ano (0,4% vs. 1%), em 5 anos (2,5% vs. 8,1%) e em 8 anos (4,1% vs. 11,4%) de tratamento. Isso correspondeu a uma redução geral de 66% no risco de morte ao longo de oito anos após o início da terapia com moduladores de CFTR.

Segundo os pesquisadores, “as estimativas de risco são influenciadas pelo momento das aprovações regulatórias de cada terapia moduladora de CFTR.” As estimativas de oito anos foram impulsionadas pelo Kalydeco (ivacaftor); os dados de cinco anos incorporaram também os efeitos do Orkambi (ivacaftor/lumacaftor) e do Symdeko (ivacaftor/tezacaftor); e os resultados de um ano incluíram também o Trikafta (ivacaftor/tezacaftor/elexacaftor). Vale destacar que uma terapia moduladora de próxima geração chamada Alyftrek (vanzacaftor/tezacaftor/deutivacaftor), comercializada pela Vertex Pharmaceuticals, foi aprovada mais recentemente, em dezembro de 2024.

O risco de morte variou conforme a idade de início do tratamento: 49% menor para quem começou entre 12 e 17 anos, 72% menor para quem iniciou entre 18 e 29 anos e 70% menor para pacientes que começaram aos 30 anos ou mais.

Após o início do tratamento, o risco de morte foi 69% menor em homens e 65% menor em mulheres, uma diferença que não é estatisticamente significativa.

Entre os pacientes tratados com um modulador de CFTR, 6,7% interromperam o tratamento após uma mediana de 1,9 anos. Aqueles que permaneceram em tratamento foram acompanhados por uma mediana de 4,2 anos.

“Embora cerca de 90% das pessoas com FC sejam hoje elegíveis para as terapias moduladoras de CFTR, elas ainda são inacessíveis para alguns, devido a variantes genéticas que não respondem ao tratamento, falta de tolerância e custos elevados, mas novos tratamentos estão em desenvolvimento e esperamos que beneficiem essas pessoas”, escreveram os pesquisadores. “Esperamos que a demonstração mais ampla da efetividade dos moduladores de CFTR motive a expansão do acesso por meio da redução de custos e de maior cobertura pelos planos de saúde, e que isso reduza ainda mais a mortalidade por FC com o aumento da adesão ao tratamento.”

Acesso aos moduladores no Brasil

No Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde) disponibiliza o Kaydeco e o Trikafta, sendo este último disponível para pessoas com pelo menos uma cópia da mutação Delta F508 e pelo menos 6 anos de idade. Para crianças entre 2 a 5 anos de idade com pelo menos uma cópia da mutação Delta F508 e pessoas com mutações raras, o Ministério da Saúde, através da Conitec, está realizando uma avaliação para a incorporação destas indicações no SUS. A recomendação preliminar foi desfavorável à incorporação, na reunIão realizada pelo Comitê de Medicamentos em Maio, e em breve será aberta uma consulta pública para ouvir a sociedade, os pacientes e a nova proposta de preço.

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Nota importante: As informações aqui contidas têm cunho estritamente educacional. Em hipótese alguma pretendem substituir a consulta médica, a realização de exames e/ou o tratamento médico. Em caso de dúvidas, fale com seu médico.

Fonte: Cystic Fibrosis News Today / CHEST Journal

Katherine E. Kurgansky, Joseph M. Collaco, Derek K. Ng, Catherine R. Lesko,
Effectiveness of CFTR modulator therapy on risk of death for individuals with cystic fibrosis,
CHEST, 2026. https://doi.org/10.1016/j.chest.2026.04.041.