Variantes da CFTR: Como diferente defeitos na CFTR influenciam a Fibrose Cística
Instituto Unidos pela Vida - 21/08/2026 08:00
A fibrose cística é uma doença genética progressiva decorrente de mutações no gene CFTR, que codifica uma proteína com o mesmo nome. Até o momento, já foram descritas mais de 2.100 variantes nesse gene, muitas das quais são patogênicas (ditas mutações), embora uma parcela significativa permaneça pouco caracterizada. Os pacientes podem apresentar a mesma variante em ambos os alelos (homozigose) ou variantes distintas em cada um deles (heterozigose).
O perfil específico das variantes causadoras da doença influencia diretamente a gravidade da doença, uma vez que diferentes alterações genéticas afetam a proteína CFTR de maneiras distintas. Essa heterogeneidade também tem implicações terapêuticas relevantes: os moduladores da CFTR, por exemplo, são medicamentos capazes de corrigir defeitos na proteína induzidos por determinados tipos de variantes, mas não por outros.
Independentemente da classe, todas as variantes patogênicas culminam na ausência da proteína CFTR ou em uma redução significativa de sua função. Em condições normais, a CFTR é sintetizada e transportada até a membrana celular, onde atua como um canal iônico, regulando o fluxo de cloreto e de bicarbonato. Esse equilíbrio iônico é fundamental para a produção e a composição adequada do muco, que protege e assegura o bom funcionamento dos tratos respiratório e gastrointestinal. Quando o transporte iônico é comprometido, devido a defeitos na proteína CFTR, o muco torna-se anormalmente espesso e viscoso, e seu acúmulo progressivo nos órgãos é o principal fator fisiopatológico responsável pelos sintomas da FC.
As variantes patogênicas são tradicionalmente classificadas de acordo com o efeito molecular específico sobre a proteína CFTR. Esse sistema de classificação tem sido revisado ao longo do tempo para incorporar os avanços do conhecimento científico. Atualmente, adota-se uma divisão em seis classes funcionais:
- Classe I – defeito na produção da proteína (síntese prejudicada);
- Classe II – defeito no dobramento e processamento intracelular;
- Classe III – canal proteico inserido na membrana, mas com defeito na comporta (regulação do canal);
- Classe IV – defeito na condutância do canal (fluxo iônico reduzido);
- Classe V – produção insuficiente de proteína funcional;
- Classe VI – proteína transportada à membrana, porém instável e rapidamente removida da superfície celular.
Classe I
As variantes de classe I comprometem a produção da proteína CFTR, resultando em ausência total de síntese ou na geração de formas truncadas e não funcionais, que são rapidamente degradadas pelo sistema celular. Esse defeito origina-se durante o processo de transcrição ou de processamento do RNA mensageiro, etapa fundamental para a tradução da informação genética em proteína. Ao redor do mundo, cerca de 10% dos pacientes com FC apresentam variantes desse tipo.
Dois mecanismos principais estão associados a esse defeito: variantes nonsense (“sem sentido”) e variantes de splicing (“de emenda”).
As variantes nonsense introduzem um sinal de parada prematuro na sequência codificante do gene CFTR; como se fosse uma interrupção análoga a um ponto final colocado no meio de uma frase. Quando a maquinaria celular de tradução detecta esse sinal precocemente, a síntese da proteína é interrompida antes do término adequado, gerando uma proteína encurtada, que é prontamente degradada. No Brasil, variantes nonsense frequentes em pacientes com FC incluem G542X, Y1092X e R1162X.
Já as variantes de splicing afetam o processo de maturação do RNA mensageiro. O gene CFTR é composto por regiões codificantes (éxons) e regiões não codificantes (íntrons), que desempenham funções regulatórias, mas não participam da sequência final da proteína. Durante a transcrição, todo o gene é copiado para o pré-RNA mensageiro; em seguida, os íntrons devem ser removidos por um mecanismo preciso de corte e emenda (splicing). Variantes que afetam locais de splicing prejudicam esse processo, resultando em RNA mensageiro anormal que contém sequências incorretas ou é incapaz de produzir uma proteína funcional. Exemplos de variantes de splicing identificadas em pacientes brasileiros são 3272-26A>G e 1812-1G>A.
Do ponto de vista terapêutico, os moduladores da CFTR atuam sobre a proteína já formada, corrigindo defeitos estruturais ou funcionais em nível pós-traducional (ou seja, após a síntese da proteína). Dessa forma, não se espera que esses medicamentos tragam benefícios clínicos significativos para pacientes portadores de variantes de classe I, uma vez que a proteína-alvo não é produzida. Com raras exceções, a maioria dos pacientes com variantes de splicing não é elegível para esse tipo de terapia.
Classe II
Para que a proteína CFTR exerça adequadamente sua função, é essencial que ela assuma a forma tridimensional correta. As variantes de classe II comprometem esse processo de dobramento, resultando em uma proteína estruturalmente anormal. Ao ser reconhecida como defeituosa pelos sistemas de controle de qualidade da célula, a CFTR é direcionada à degradação precoce, antes mesmo de chegar à membrana celular, onde normalmente atuaria como canal iônico.
Esse tipo de variante é o mais frequente entre as causas de FC em todo o mundo. Estima-se que pelo menos 80% dos pacientes apresentam pelo menos um alelo com variante de classe II. No Brasil, a variante F508del é a mais comum, presente em aproximadamente 60% dos casos. Outras variantes de processamento proteico identificadas em pacientes brasileiros incluem G85E, R1066C e N1303K.
Do ponto de vista terapêutico, os chamados corretores da CFTR—uma subclasse dos moduladores da CFTR—atuam especificamente sobre proteínas com defeitos de dobramento. Essas moléculas ligam-se à CFTR mutada e promovem seu dobramento adequado, favorecendo o tráfego até a membrana celular. Atualmente, quatro corretores estão aprovados para uso clínico: lumacaftor, tezacaftor, elexacaftor e vanzacaftor.
Classe III
A proteína CFTR, quando inserida na membrana celular, atua como um canal iônico dotado de um mecanismo de abertura e fechamento—uma “comporta”—que regula a passagem de íons cloreto e de bicarbonato. As variantes de classe III, também denominadas variantes de comporta (ou gating), comprometem esse mecanismo ao manter o canal permanentemente fechado, impossibilitando o fluxo iônico e, consequentemente, a função fisiológica da proteína.
Esse tipo de variante é menos frequente e afeta cerca de 5% dos pacientes com FC em todo o mundo. No Brasil, exemplos de variantes de gating identificadas incluem S549R e G551D.
Para pacientes portadores dessas variantes, os potenciadores da CFTR constituem uma estratégia terapêutica eficaz. Esses medicamentos atuam diretamente sobre o canal, favorecendo sua abertura e permitindo que a proteína, embora mutada, exerça sua função de transporte iônico. Atualmente, dois potenciadores estão aprovados para uso clínico: ivacaftor e sua forma mais estável, deutivacaftor.
Classe IV
Em condições normais, a proteína CFTR atua como um canal na membrana celular, permitindo a passagem de íons cloreto e de bicarbonato para o meio extracelular. As variantes de classe IV, também denominadas variantes de condutância, alteram a estrutura interna do poro do canal, dificultando o fluxo iônico; um fenômeno comparável a um encanamento parcialmente obstruído, no qual a passagem ocorre de forma reduzida, mas não totalmente bloqueada.
Esse tipo de variante é relativamente pouco frequente, estando presente em cerca de 2% dos pacientes com FC em todo o mundo, o que corresponde a aproximadamente um em cada 50 indivíduos afetados. No Brasil, exemplos comuns incluem R117H, R334W e D1152H.
Do ponto de vista terapêutico, os potenciadores da CFTR, como o ivacaftor, podem ser eficazes em pacientes com variantes de classe IV, uma vez que aumentam a probabilidade de abertura do canal e amplificam o fluxo iônico residual. Além disso, terapias combinadas que associam potenciadores e corretores também têm demonstrado benefícios em determinados pacientes portadores dessas variantes.
Classe V
Nas variantes de classe V, a proteína CFTR sintetizada é estruturalmente normal e potencialmente funcional. No entanto, a quantidade produzida pela célula é significativamente inferior aos níveis fisiológicos, de modo que a oferta de proteína ativa se torna insuficiente para garantir a regulação iônica adequada nos tecidos afetados.
Esse defeito geralmente está associado a alterações que afetam a eficiência da transcrição gênica ou o processamento do RNA mensageiro, resultando em menor disponibilidade para a síntese proteica. Embora as variantes de classe V sejam consideradas raras no contexto global da FC, alguns exemplos já foram identificados em pacientes brasileiros, entre os quais se destacam 2789+5G>A, 3272-26A>G e 3849+10kbC>T.
Classe VI
Nas variantes de classe VI, a proteína CFTR é produzida e transportada até a membrana celular de forma aparentemente normal, diferentemente do que ocorre nas classes I e II. No entanto, uma vez inserida na membrana, a proteína apresenta acentuada instabilidade estrutural, sendo rapidamente reconhecida pelos mecanismos celulares de degradação e removida da superfície celular antes de exercer sua função de forma eficaz.
Esse defeito traduz-se, na prática, em uma redução significativa do tempo de permanência da CFTR na membrana, comprometendo a capacidade da célula de manter um fluxo iônico adequado ao longo do tempo. Embora menos frequentes do que as variantes das classes I e II, as mutações de classe VI representam um mecanismo fisiopatológico distinto, com implicações terapêuticas específicas, uma vez que a eficácia dos moduladores disponíveis pode variar conforme a estabilidade da proteína-alvo.
A influência do tipo de variante na gravidade da fibrose cística
De modo geral, variantes que provocam defeitos mais profundos na estrutura ou na função da proteína CFTR estão associadas a formas mais graves da doença e a um prognóstico menos favorável. Nesse contexto, as variantes classificadas nas classes I, II e III—que afetam, respectivamente, a produção, o processamento e a abertura do canal iônico—costumam resultar em quadros clínicos mais graves. Por outro lado, variantes das classes IV, V e VI—que comprometem a condutância, a quantidade de proteína produzida ou a estabilidade da proteína na membrana—tendem a manifestar-se com menor gravidade.
Como cada paciente herda uma cópia do gene CFTR de cada progenitor, a combinação das variantes presentes em ambos os alelos também desempenha um papel determinante na expressão clínica da doença. Assim, indivíduos que apresentam variantes nas classes I a III em ambas as cópias do gene tendem a evoluir para formas mais graves de FC. Em contrapartida, aqueles que possuem uma variante de classe I a III em um alelo e uma variante de classe IV a VI no outro alelo podem apresentar um fenótipo intermediário ou mais atenuado, dependendo do efeito funcional residual da proteína.
É importante enfatizar que essas correlações refletem tendências gerais, e não regras absolutas. A FC caracteriza-se por notável heterogeneidade clínica, mesmo entre pacientes com o mesmo genótipo. Essa variabilidade é modulada por múltiplos fatores, entre os quais se destacam:
- genes modificadores, que influenciam a intensidade da resposta inflamatória e a função de outros canais iônicos;
- fatores ambientais, como exposição a alérgenos, poluentes e agentes infecciosos;
- fatores socioeconômicos, que afetam o acesso ao diagnóstico precoce, à nutrição adequada e ao acompanhamento multidisciplinar.
Por fim, cabe ressaltar que os avanços terapêuticos—especialmente os moduladores da CFTR—têm alterado de forma expressiva a história natural da doença, sobretudo quando instituídos precocemente. Essas intervenções podem atenuar o impacto funcional das variantes, modificar a progressão da FC e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes, independentemente da classe de variante, embora a responsividade varie conforme o tipo de variante.
Por Dr. Miquéias Lopes-Pacheco
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