Cáries não tratadas estão associadas a uma pior saúde pulmonar na fibrose cística
Instituto Unidos pela Vida - 21/09/2026 08:00Cuidados bucais são apontados como um alvo potencial para favorecer a função respiratória

Problemas dentários, particularmente cáries não tratadas, estão associados a uma pior saúde pulmonar e a uma menor qualidade de vida relacionada à função respiratória em jovens com fibrose cística (FC), segundo um estudo.
Adolescentes e jovens adultos com FC que apresentavam cáries não tratadas mais extensas tinham pior função pulmonar e relatavam um maior impacto dos sintomas respiratórios no cotidiano, apesar de, em geral, manterem a função pulmonar preservada.
“Nossos resultados sugerem que a má saúde bucal pode ser um fator de risco modificável para uma pior saúde pulmonar na FC”, escreveram os pesquisadores, destacando os cuidados com a saúde bucal como um possível alvo para favorecer a saúde respiratória.
O estudo, intitulado “Associação de doenças dentárias com desfechos pulmonares em uma coorte multicêntrica de adolescentes e jovens adultos com FC”, foi publicado na revista cientifica Journal of Cystic Fibrosis.
De modo geral, os participantes apresentavam função pulmonar preservada
A fibrose cística (FC) está associada a vários fatores de risco para a saúde bucal e problemas dentários, incluindo o consumo de alimentos hipercalóricos para manutenção do peso, alterações nas características da saliva e níveis mais elevados de bactérias causadoras de cáries na cavidade oral.
A saúde bucal precária pode afetar a saúde pulmonar, uma vez que bactérias da boca podem penetrar nas vias aéreas por meio de um processo conhecido como aspiração. No entanto, “a associação entre doenças dentárias e desfechos respiratórios na FC não havia sido avaliada anteriormente”, escreveram os pesquisadores.
Para suprir essa lacuna de conhecimento, pesquisadores realizaram um estudo observacional com 203 adolescentes e jovens adultos com FC, acompanhados em três centros dos EUA entre 2022 e 2024. A idade média dos participantes era de 18,7 anos, e a maioria (85%) fazia uso de um modulador da proteína CFTR de alta eficácia.
No início do estudo, os participantes apresentavam, de modo geral, função pulmonar preservada. O escore Z médio do VEF1 (Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo) foi de 0,1, correspondendo a um VEF1 médio de 101,3% do valor previsto com base nas normas de idade e sexo. O VEF1 mede a quantidade de ar que uma pessoa consegue expirar com força em um segundo e é comumente utilizado para avaliar a função pulmonar.
Os participantes também relataram uma qualidade de vida relacionada à função respiratória relativamente boa, com uma pontuação média de 86,9 (em um máximo de 100) no domínio respiratório do questionário CFQ-R; pontuações mais altas indicam menos sintomas respiratórios e menor impacto nas atividades diárias.
Problemas dentários eram comuns entre os participantes
No entanto, problemas dentários eram comuns: mais de um quarto dos participantes (28%) apresentava pelo menos uma cárie dentária não tratada, sendo que 12,3% tinham três ou mais superfícies dentárias com cáries não tratadas. Sinais de inflamação gengival, ou gengivite, também eram frequentes, com cerca de dois terços dos participantes apresentando inflamação gengival localizada ou generalizada.
De modo geral, a presença de cáries não tratadas mais extensas associou-se a uma função pulmonar pior. Participantes com cáries afetando três ou mais superfícies apresentaram escores Z de VEF1 (FEV1) mais baixos — uma diferença média de 0,88 pontos — em comparação com aqueles sem cáries não tratadas.
Eles também apresentaram uma pontuação média 11,7 pontos menor no domínio respiratório do questionário CFQ-R, indicando um declínio clinicamente significativo na qualidade de vida relacionada à função respiratória. Os pesquisadores observaram que uma alteração de 4 pontos no CFQ-R é geralmente considerada significativa para os pacientes.
A gengivite, por outro lado, não apresentou associação significativa com a função pulmonar ou com os escores de qualidade de vida relacionada à função respiratória.
Em conclusão, “nossos resultados sugerem que a má saúde bucal pode ser um fator de risco modificável para uma pior saúde pulmonar na FC, provavelmente mediado pela disbiose oral” — ou seja, um desequilíbrio na comunidade de microrganismos que habitam a boca — “e que a prevenção e o tratamento de cáries dentárias, por exemplo, por meio da escovação regular com cremes dentais [com flúor], poderiam potencialmente melhorar a saúde respiratória de [adolescentes e jovens adultos] com FC, mesmo na era dos moduladores”, escreveram os pesquisadores.
Análises futuras examinarão como os problemas dentários evoluem ao longo de três anos e se as alterações nas bactérias bucais podem ajudar a explicar a relação entre a saúde bucal e os desfechos respiratórios.
Artigo traduzido pela Dra. Mariana Camargo para o Instituto Unidos pela Vida em 06/08/2026: https://cysticfibrosisnewstoday.com/news/untreated-tooth-cavities-linked-worse-lung-health-cf-study
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