Combinação de medicamentos demonstra potencial para o tratamento da fibrose cística

Instituto Unidos pela Vida - 07/09/2026 08:00

Um estudo de Stanford revela que dois medicamentos já existentes melhoram a eliminação de muco em modelos animais de fibrose cística, indicando uma possível via para reduzir infecções pulmonares crônicas em humanos.

Uma equipe de pesquisa da Stanford Medicine descobriu que dois tipos de medicamentos já existentes atuam em sinergia para melhorar a eliminação de muco dos pulmões de animais com fibrose cística.

Os resultados foram publicados na edição de junho de 2026 do Journal of Clinical Investigation. Se replicada em humanos, a descoberta poderá oferecer uma maneira de reduzir as infecções pulmonares crônicas em pessoas com fibrose cística.

“Espero sinceramente que essa descoberta possa ajudar os pacientes com fibrose cística”, disse o autor principal, Nam Soo Joo, PhD, pesquisador sênior da Stanford Medicine. “Se esses medicamentos melhorarem a depuração mucociliar em humanos tanto quanto em nossos modelos animais, esperamos que isso ajude a remover patógenos dos pulmões e a reduzir as infecções das vias aéreas nos pacientes.”

O autor sênior do estudo é Carlos Milla, MD, professor de pediatria na Stanford Medicine e pneumologista que trata crianças com fibrose cística no Stanford Medicine Children’s Health.

A equipe de pesquisa demonstrou que a combinação de medicamentos — um agonista beta-adrenérgico (formoterol) e um agonista colinérgico em baixa dose (metacolina) — foi segura e bem tolerada em um pequeno grupo de pessoas, incluindo indivíduos com fibrose cística e voluntários saudáveis. Os medicamentos já são aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA para outros usos, e os cientistas agora planejam um estudo para avaliar a eficácia dessa combinação em pacientes com fibrose cística.

A descoberta pode ser especialmente benéfica para os 10% a 20% dos pacientes com fibrose cística que não respondem aos medicamentos direcionados para a doença, conhecidos como moduladores da CFTR (regulador da condutância transmembrana da fibrose cística), observou Joo. “Esses medicamentos sinérgicos também podem ajudar pessoas com outras condições respiratórias, como doença pulmonar obstrutiva crônica ou bronquiectasia — uma doença pulmonar crônica caracterizada por cicatrizes graves nas vias aéreas —”, acrescentou ele.

A fibrose cística é uma doença genética relativamente comum, afetando 1 em cada 3.000 a 4.000 bebês nascidos nos Estados Unidos. Os pacientes apresentam mutações no gene regulador da condutância transmembrana da fibrose cística (CFTR). Em pessoas saudáveis, o gene CFTR codifica canais proteicos que permitem a passagem de íons cloreto e bicarbonato através das membranas celulares. No entanto, em pacientes com fibrose cística, esses canais apresentam mau funcionamento, levando os pulmões e o sistema digestivo a produzir um muco espesso. Esse muco viscoso retém bactérias e torna os pacientes vulneráveis ​​a infecções pulmonares crônicas. Medicamentos conhecidos como moduladores de CFTR, que restauram a função dos canais de cloreto, melhoraram a vida de muitos pacientes com fibrose cística ao permitir que seus organismos produzam muco normal. No entanto, até 20% das mutações genéticas dos pacientes são incompatíveis com esses moduladores, o que significa que os medicamentos não são eficazes nesses casos.

Por isso, a equipe de Joo ficou entusiasmada ao encontrar uma abordagem diferente para o problema do muco.

Uma descoberta fortuita

A descoberta dos pesquisadores ocorreu por acaso. Eles investigavam se diversos medicamentos poderiam acelerar a depuração mucociliar — processo no qual os cílios (projeções semelhantes a pelos que revestem as vias de acesso aos pulmões) batem de forma coordenada para expelir o muco e partículas estranhas, como bactérias ou poeira, das vias aéreas. Esse processo mantém os pulmões saudáveis.

Durante testes de medicamentos em tecidos cultivados em placa, os pesquisadores utilizaram uma combinação de um agonista beta-adrenérgico e um agonista colinérgico para verificar a viabilidade dos tecidos. (Cada uma dessas duas categorias de medicamentos inclui diversas drogas; inicialmente, os pesquisadores não estavam utilizando fármacos aprovados para uso em humanos). Para a surpresa dos cientistas, a combinação de medicamentos — destinada apenas a servir como controle experimental — acelerou a limpeza mucociliar.

A combinação parecia pouco promissora, uma vez que já se sabe que pessoas com FC apresentam uma resposta anormal aos agonistas beta-adrenérgicos. Por outro lado, a administração isolada de agonistas colinérgicos provoca a constrição das vias aéreas de forma semelhante à asma, o que levanta preocupações quanto à segurança.

Um resultado contraintuitivo

Embora suspeitassem que a combinação de medicamentos não funcionaria, a equipe de Joo decidiu testá-la: primeiro em amostras de tecido das vias aéreas de furões (modelo animal de FC) e, posteriormente, em tecidos e animais vivos — incluindo furões, ratos, ovelhas e porcos — com FC induzida farmacologicamente ou de origem genética.

No novo estudo, os pesquisadores utilizaram formoterol e metacolina, que são, respectivamente, um agonista beta-adrenérgico e um agonista colinérgico. Os cientistas escolheram esses fármacos específicos por já serem aprovados pela FDA para uso como medicamentos inalatórios.

Quando administrados isoladamente, cada medicamento provocou um pequeno aumento no clearance mucociliar; no entanto, quando combinados, os efeitos foram muito mais acentuados. Por exemplo, em ratos com FC, a combinação de medicamentos elevou a velocidade da limpeza mucociliar para cerca de 80% daquela observada em ratos saudáveis.

Experimentos complementares em tecido traqueal demonstraram que a administração conjunta dos medicamentos aumenta a secreção de fluidos, inibe a absorção de fluidos e eleva o pH do fluido secretado. Essas alterações tornam o muco menos viscoso e mais móvel.

Além disso, os pesquisadores demonstraram que, quando a combinação de medicamentos foi administrada a furões com FC que já recebiam um modulador da CFTR, os animais conseguiram eliminar o muco com mais facilidade do que quando recebiam apenas o modulador da CFTR, sugerindo que a combinação de medicamentos pode beneficiar todos os pacientes com FC. Em um pequeno teste de segurança realizado em humanos, como era de se esperar, a metacolina provocou a constrição das vias aéreas quando administrada isoladamente. No entanto, a combinação dos dois fármacos não causou esse efeito.

Os resultados são promissores, tanto pelas implicações para a fibrose cística quanto para pacientes com outras doenças pulmonares, afirmou Joo. “Pacientes com outros distúrbios respiratórios, como doença pulmonar obstrutiva crônica ou bronquiectasia, também apresentam comprometimento da depuração mucociliar, embora esse quadro seja leve quando comparado ao da fibrose cística”, disse ele. “Se utilizarmos esse medicamento em outras doenças das vias aéreas, é possível que também haja benefícios para esses pacientes; contudo, ainda são necessários ensaios clínicos em larga escala para determinar a combinação e as concentrações ideais desses fármacos”.

Artigo traduzido pela Dra. Mariana Camargo para o Instituto Unidos pela Vida em 06/08/2026: https://news.stanford.edu/stories/2026/06/drug-combo-potential-cystic-fibrosis

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