Tratamento com moduladores da CFTR em gestantes pode beneficiar os bebês com FC antes do nascimento

Instituto Unidos pela Vida - 14/09/2026 08:00

Observou-se “potencial benefício fetal” em alguns casos, mas a abordagem permanece experimental

Mulheres com fibrose cística (FC) que mantêm a terapia com moduladores de CFTR durante a gravidez apresentam saúde estável e não registram aumento de complicações no parto, segundo uma nova revisão.

Paralelamente, relatos de casos e pequenos estudos publicados indicam que o tratamento intencional de bebês com FC antes do nascimento — utilizando esses medicamentos administrados à mãe durante a gestação — tem demonstrado sinais iniciais de benefícios para o feto. Tais benefícios incluem o alívio de obstruções intestinais e a melhora da função pancreática em bebês ainda no útero.

Apesar desses resultados iniciais positivos, os pesquisadores ressaltaram que essa abordagem permanece experimental, existindo ainda questões não respondidas sobre a segurança a longo prazo e o momento ideal para iniciar o tratamento do feto afetado.

“A continuidade do tratamento da FC materna parece segura e benéfica, e evidências preliminares indicam um potencial benefício fetal em circunstâncias específicas”, escreveram os autores, enfatizando, contudo, que “ainda existem lacunas no conhecimento e a terapia para indicações fetais é de caráter experimental”.

Ainda assim, “a terapia pré-natal com moduladores de CFTR mostra-se promissora como a primeira terapia fetal para a FC”, afirmou a equipe.

Em todos os casos, observaram os cientistas, “um aconselhamento robusto, a coordenação interdisciplinar e um monitoramento estruturado são essenciais, juntamente com pesquisas contínuas para definir janelas terapêuticas, segurança e desfechos a longo prazo”.

O estudo de revisão, intitulado “Terapia pré-natal com moduladores de CFTR para fibrose cística fetal: evidências emergentes, considerações clínicas e perspectivas futuras”, foi liderado por pesquisadores dos EUA e publicado na revista cientifica Pregnancy.

O acúmulo de muco espesso nos pulmões, pâncreas, intestinos e outros órgãos, característico da doença, pode começar durante o desenvolvimento fetal. Alterações no pâncreas — um órgão na parte superior do abdômen que desempenha um papel fundamental na digestão — podem surgir já no segundo trimestre, ou na metade da gravidez. Há também evidências de mecônio (as primeiras fezes do bebê) com consistência espessada.

Os moduladores de CFTR, como o Trikafta® e o Alyftrek®, são tratamentos desenvolvidos para combater a causa subjacente da fibrose cística (FC). Estudos confirmam que essas terapias podem melhorar a função pulmonar e digestiva, além de prolongar a sobrevida de pessoas com FC.

Como resultado desses avanços no tratamento, mais pacientes com FC estão engravidando, e muitas optam por continuar utilizando o modulador durante toda a gestação.

Um grande estudo analisou o impacto do Trikafta®  em bebês

Nesta revisão, os pesquisadores examinaram o impacto desses medicamentos na mãe e no feto, seja porque a mãe tem FC e optou por continuar o tratamento ou porque o feto apresenta a doença. Os autores reuniram dados de estudos sobre gravidez, medições dos níveis do medicamento, relatos de casos de fetos tratados, pesquisas com animais e um workshop com especialistas em FC.

Para mães com FC que continuam o uso do modulador durante a gravidez, as evidências atuais são tranquilizadoras, segundo os pesquisadores: a função pulmonar e o estado nutricional tendem a permanecer estáveis ​​ou melhorar nas gestantes. Além disso, os dados mostram que não houve aumento na incidência de malformações congênitas graves, partos prematuros ou abortos espontâneos além do que seria normalmente esperado.

Um grande estudo constatou que bebês nascidos de mães em tratamento com Trikafta® apresentavam menor probabilidade de serem pequenos para a idade gestacional (ou seja, em relação ao estágio da gravidez no momento do nascimento). Além disso, mais de três quartos das gestações chegaram ao termo (gravidez completa).

Não foram relatados casos de natimortos ou mortes de recém-nascidos na maior série de casos compilada até o momento, observaram também os pesquisadores. Os efeitos colaterais nas mães são geralmente leves, como erupções cutâneas, dor de cabeça, dor abdominal ou diarreia, segundo os dados. Em um estudo, lesão hepática grave ocorreu em menos de 1% dos casos.

Como esses medicamentos para FC atravessam a placenta, o feto fica diretamente exposto a eles. Assim, alguns médicos podem iniciar a terapia com moduladores em uma gestante portadora de fibrose cística (FC) ou em uma mãe com a doença, especificamente porque um ultrassom revelou sinais de íleo meconial — uma obstrução no intestino do feto causada por mecônio espessado.

Diversos relatos de caso e pequenas séries de casos descrevem a redução ou resolução dessa obstrução após o início da terapia com moduladores. Em um caso, observou-se o agravamento da dilatação intestinal após o início do uso de Trikafta®; por isso, alguns protocolos agora recomendam a realização de ressonância magnética do intestino fetal nos casos mais graves. Dados indicam que iniciar a medicação mais cedo na gestação parece ser mais eficaz do que iniciá-la mais tarde.

Tratamento pré-natal para FC demonstra potencial para prevenir danos

Além do intestino, há sinais iniciais de que a exposição pré-natal pode ajudar a preservar outros órgãos afetados pela FC, segundo a revisão. Alguns fetos expostos ao Trikafta® desde a concepção apresentaram função pancreática preservada, apesar da previsão de que desenvolveriam insuficiência pancreática.

Quanto ao trato reprodutivo masculino, quase todos os homens com FC nascem sem os canais deferentes — os tubos que transportam os espermatozoides — devido a danos ocorridos antes do nascimento. Um relato de caso descreveu dois bebês cujos canais deferentes pareciam preservados após a mãe ter utilizado Trikafta® durante toda a gravidez. No entanto, os pesquisadores observaram que a janela de oportunidade para prevenir esse dano pode ocorrer mais cedo na gestação, no primeiro trimestre ou no início do segundo.

Os medicamentos também passam para o leite materno, mas em níveis inferiores aos encontrados no sangue da mãe — e baixos demais para que esse tratamento para FC seja eficaz por si só. Ainda assim, alguns relatos de caso descrevem bebês com FC que mantiveram uma boa função pancreática apenas com o aleitamento materno, enquanto as mães utilizavam Trikafta®. Devido a essa incerteza, alguns centros especializados em FC apoiam a continuidade da amamentação durante o uso materno de moduladores, enquanto outros não o fazem; essa prática varia internacionalmente, segundo os pesquisadores.

Cataratas pequenas — uma opacificação do cristalino do olho que não chega a afetar a visão — foram relatadas ocasionalmente em bebês expostos ao Trikafta® antes do nascimento. Mesmo assim, essa ocorrência não foi observada de forma consistente em todos os grupos estudados nem reproduzida em modelos animais de FC, conforme indicaram os dados.

A exposição pré-natal também pode reduzir um marcador chamado tripsinogênio imunorreativo, utilizado na triagem neonatal; isso levou a resultados falso-negativos na triagem para FC em alguns bebês expostos, observaram os pesquisadores. Por esse motivo, recomenda-se que bebês com histórico de exposição pré-natal sejam submetidos a exames diagnósticos adicionais, independentemente dos resultados da triagem neonatal.

Os autores observam que o uso de moduladores de CFTR para tratar um feto diagnosticado com fibrose cística ainda é experimental; isso significa que o tratamento não é aprovado e não existem dados de segurança a longo prazo em humanos, inclusive sobre o desenvolvimento cerebral. A equipe recomendou que esse tipo de tratamento seja realizado em centros especializados. Além disso, a equipe ressaltou que a cobertura do tratamento pela assistência médica para uma mãe portadora não é garantida, o que pode representar uma barreira de acesso.

Quanto às perspectivas futuras, os autores defenderam a criação de registros que acompanhem exames de imagem fetais, níveis do fármaco no sangue do cordão umbilical e desfechos a longo prazo, a fim de definir melhor em que situações esse tratamento pré-natal é benéfico e como deve ser utilizado com segurança ao longo do tempo.

“A terapia pré-natal com moduladores de CFTR é uma fronteira emergente na medicina fetal molecular”, concluíram os pesquisadores. “Os especialistas em FC devem oferecer aconselhamento detalhado, monitoramento estruturado e assistência interdisciplinar, ao mesmo tempo em que apoiam pesquisas em andamento para definir janelas terapêuticas, segurança a longo prazo e protocolos padronizados”.

Artigo traduzido pela Dra. Mariana Camargo para o Instituto Unidos pela Vida em 06/08/2026: https://cysticfibrosisnewstoday.com/news/cf-treatment-pregnant-women-shows-potential-help-babies-study

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